Amigo de Flávio Bolsonaro é alvo de operação sobre fraudes do INSS

Nova fase da Operação Sem Desconto mira suspeitas de lavagem de dinheiro no esquema do INSS. Entre os alvos estão o advogado Willer Tomaz e familiares do senador Weverton Rocha

Amigo de Flávio Bolsonaro é alvo de operação sobre fraudes do INSS
Flávio Bolsonaro viajou com Willer Tomaz em um jatinho dos donos do laboratório União Química.
Leia e depois continue
Total Colaboração R$ 10,00

Ajude este portal a continuar existindo com apenas R$ 10

Rápido e sem burocracia
Contribua via Pix em segundos. Sem precisar de cartão ou criar contas longas.
Você decide como ajudar
Sugerimos R$ 10, mas qualquer valor voluntário mantém nosso jornalismo vivo.
Informação para todos
Seu apoio garante que nossas notícias continuem gratuitas e acessíveis.
+6.500 pessoas já apoiaram
Contribuição Segura via Pix
Escolha sua doação
Valor enviado será único.
Outros Valores +

Com quanto você pode ajudar hoje?

Sua contribuição é usada para impulsionar notícias e manter a equipe de redação.

Você quer se identificar ou doar anonimamente?

Caso você escolha se identificar, seus dados nos ajudam a saber quem realizou a doação e quem apoia esta causa.

Ambiente seguro e criptografado
A Polícia Federal deflagrou, na manhã desta terça-feira, uma nova fase da Operação Sem Desconto, que investiga suspeitas de lavagem de dinheiro no esquema de fraudes no INSS. Um dos focos da ação é apreender bens para recuperar valores supostamente desviados — foram apreendidos veículos de luxo e outros itens, com ordens expedidas pelo ministro André Mendonça, do STF.

O amigo de Flávio

Entre os alvos está o advogado e empresário Willer Tomaz, amigo pessoal declarado de Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Também foram alvo de busca a esposa, uma filha e duas irmãs do senador Weverton Rocha (PDT-MA), vice-líder do governo Lula no Senado.
A PF chegou a divulgar inicialmente que o próprio Weverton era o alvo principal das diligências em Brasília e São Luís, mas a informação foi corrigida ao longo da manhã: o senador não é alvo direto dos mandados desta fase, embora continue investigado no inquérito mais amplo.
A defesa de Willer Tomaz informou, em nota, que a busca em sua casa e em seu escritório decorre exclusivamente do fato de ele ser dono da aeronave usada por Weverton Rocha numa viagem particular já de conhecimento público, cedida em "caráter pessoal e amistoso, sem qualquer relação com os fatos investigados".
O advogado afirma não ser investigado no âmbito da Operação Sem Desconto nem ter qualquer vínculo com o esquema de fraudes previdenciárias, e diz estar à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos.

Quem é Willer Tomaz

Dono do escritório Willer Tomaz Advogados Associados, sediado no Lago Sul, em Brasília, ele é conhecido no meio político da capital federal por transitar entre diferentes espectros partidários — o que lhe rendeu, em reportagens recentes, o apelido de "advogado camaleão".
Não é a primeira vez que seu nome aparece numa investigação de peso: em 2017 ele chegou a ser preso na Operação Patmos, desdobramento das delações da JBS e do grupo J&F, acusado de intermediar propina e obter informações sigilosas da Operação Greenfield com ajuda do então procurador da República Ângelo Goulart Villela, que também foi preso na ocasião.
A denúncia contra ele acabou rejeitada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região por falta de provas, e o empresário Joesley Batista chegou a voltar atrás, afirmando depois que não havia contratado o advogado para influenciar autoridades públicas.

A amizade com Flávio Bolsonaro

A proximidade entre os dois é pública desde 2021, quando o próprio Flávio se referiu a Willer Tomaz como "meu amigo" durante uma sessão da extinta CPI da Covid, no Senado. Em 2025, os dois viajaram juntos para a Flórida, nos Estados Unidos, em um jatinho pertencente aos donos do laboratório União Química.
A relação vai além da amizade declarada. Segundo apuração da Gazeta do Povo, Tomaz atuou mais recentemente na defesa de Flávio no episódio das notas fiscais de R$ 500 mil emitidas pelo escritório do senador em nome da Copenhagen Consultoria — empresa apontada como fachada usada pelo ex-banqueiro Daniel Vorcaro, dono do liquidado Banco Master, para movimentar cerca de R$ 58 milhões. As notas, emitidas em abril de 2025, acabaram canceladas, e Flávio nega ter recebido qualquer valor da empresa.
Há ainda uma ligação societária mais antiga: segundo documentos em posse da CPMI e da Polícia Federal, a advogada indicada para administrar o escritório individual de Flávio — aberto em 2021, com capital social de apenas R$ 10 mil, no mesmo endereço da casa de R$ 5,97 milhões do senador no Lago Sul — teria sido indicada diretamente por Willer Tomaz. Em entrevista de 2022, a própria advogada confirmou que a indicação partiu de Tomaz.
Os mesmos requerimentos apontam que o advogado repassou R$ 120 mil a Milton Salvador de Almeida Júnior, descrito como um dos operadores financeiros diretos de Antônio Carlos Camilo Antunes, o "Careca do INSS" — apontado como um dos principais articuladores do esquema de fraudes previdenciárias. É, até o momento, o elo financeiro mais direto encontrado entre o entorno de Flávio Bolsonaro e o núcleo do escândalo do INSS, embora a defesa de Willer negue qualquer participação nas fraudes.

Ajude este portal a continuar existindo com apenas R$ 10

Rápido e sem burocracia
Contribua via Pix em segundos. Sem precisar de cartão ou criar contas longas.
Você decide como ajudar
Sugerimos R$ 10, mas qualquer valor voluntário mantém nosso jornalismo vivo.
Informação para todos
Seu apoio garante que nossas notícias continuem gratuitas e acessíveis.
+6.500 pessoas já apoiaram

Trânsito também com Weverton Rocha

Willer Tomaz não é próximo apenas de políticos ligados à direita. Reportagens o descrevem também como próximo do senador Weverton Rocha — vínculo que é hoje o motivo formal alegado pela PF para incluí-lo nos mandados, em razão do empréstimo da aeronave.
Antes disso, em depoimento à PF em novembro do ano passado, um ex-funcionário do "Careca do INSS" já havia relatado que uma filha de Weverton viajou em aeronave de um empresário ligado ao esquema, num encontro no aeroporto Catarina, em São Roque (SP), em 21 de fevereiro de 2024. A informação foi revelada pela Folha em janeiro deste ano.

O tamanho real do escândalo

As investigações já identificaram um rombo estimado em R$ 6,3 bilhões, que afetou cerca de 4,1 milhões de beneficiários entre 2019 e 2024. Segundo a PF, o esquema começou em 2019, no governo Jair Bolsonaro — que já havia recebido alertas sobre as fraudes —, e seguiu até 2024, sendo 64% desse valor referente a 2023 e 2024, já no governo Lula. Em agosto de 2025 a CPMI aprovou ampliar as investigações a partir de 2015, ainda no governo Dilma.
Os nomes que sustentam o núcleo central: Antônio Camilo Antunes, o "Careca do INSS", é considerado um dos principais articuladores, e ele teria movimentado R$ 24,5 milhões em apenas cinco meses. Do lado institucional, Alessandro Stefanutto, então presidente do INSS, foi demitido e depois preso em novembro, e André Fidelis, ex-diretor do instituto, foi responsável por autorizar o maior número de Acordos de Cooperação Técnica da história do órgão — ao menos 14 entidades habilitadas retiraram juntas cerca de R$ 1,6 bilhão de aposentados. O então ministro da Previdência, Carlos Lupi, chegou a admitir que foi avisado da possível fraude em 2023, mas a auditoria interna só foi instalada em 2024.
Ao todo, seis pessoas foram presas e outras seis afastadas de suas funções, e não há indício de envolvimento direto do presidente Lula ou de seu governo apurado até agora.

O pano de fundo: Banco Master, que conecta tudo

Essa é a peça que dá escala ao caso. A Copenhagen Consultoria e Assessoria foi constituída em 1º de novembro de 2024 e, já no mês seguinte, recebeu os primeiros aportes de R$ 11,2 milhões do Banco Master; em 2025 recebeu mais R$ 46,6 milhões, o que a coloca entre as dez empresas que mais receberam dinheiro do banco de Vorcaro.
Em 7 de abril de 2025 o escritório de Flávio emitiu duas notas fiscais de R$ 500 mil cada para a Copenhagen — notas que acabaram canceladas. Flávio nega qualquer irregularidade: "Eu não aceitei trabalhar para essa empresa chamada Copenhagen, que supostamente foi usada por Vorcaro para fazer pagamentos a algumas pessoas", disse o senador, classificando a divulgação dos dados como quebra de sigilo fiscal.
O caso Banco Master tem uma lista grande de nomes ilustres recebendo pagamentos — não só do entorno de Flávio: documentos subpoenados por CPI mostram pagamentos do banco a Michel Temer, a um ex-assessor sênior de Jair Bolsonaro e a um ex-ministro da Fazenda; a documentação também confirmou que o banco pagou um escritório de advocacia comandado pela esposa do ministro do STF Alexandre de Moraes. Fabio Wajngarten, ex-chefe de comunicação de Bolsonaro, recebeu R$ 3,8 milhões do Master em 2025, dizendo ter atuado na defesa jurídica de Vorcaro.
Esse é um escândalo paralelo — mas Willer Tomaz e a Copenhagen são, hoje, o ponto de solda entre os dois casos.

O que dizem as defesas

O advogado sustenta que não é investigado no esquema do INSS, que a busca decorreu só da propriedade do avião, que a cessão da aeronave teve "caráter pessoal e amistoso, sem qualquer relação com os fatos investigados", e que está à disposição da Justiça para prestar esclarecimentos.
Nenhum dos citados — Willer, Flávio ou Weverton — foi condenado por qualquer desses fatos; tudo ainda está em fase de apuração.
Nossa equipe procurou o gabinete do senador Flávio Bolsonaro para solicitar um posicionamento sobre o caso, mas não recebeu resposta até o momento.