Vorcaro teria pago R$ 10 mil por encontro de Nunes Marques com prostituta

Conversas extraídas pela Polícia Federal do celular do ex-banqueiro mostram a organização de um encontro em imóvel de luxo ligado a Vorcaro e Nunes

Vorcaro teria pago R$ 10 mil por encontro de Nunes Marques com prostituta
Ela escreveu que sua amiga havia ficado com “Kassio” e que estava sendo cobrada. Vorcaro então pediu os dados e o valor. Foto/Democrático News
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Uma sequência de mensagens retirada do celular de Daniel Vorcaro abriu uma nova frente no escândalo envolvendo o ex-controlador do Banco Master e integrantes do Supremo Tribunal Federal.
As conversas mostram uma mulher tratando com Vorcaro da organização de um encontro em São Paulo e, dias depois, cobrando R$ 10 mil por uma amiga que, segundo ela, teria “ficado com o Kassio”.
Pelo contexto dos diálogos, reportagens de UOL, CNN e Metrópoles apontaram que a referência seria ao ministro Kassio Nunes Marques, do STF e atual presidente do Tribunal Superior Eleitoral. O ministro nega o encontro.
Uma apuração publicada nesta quarta-feira (16) pela Alma Preta, em parceria com o ICL Notícias, descreveu a mulher envolvida no suposto encontro como garota de programa. É importante fazer essa atribuição: as primeiras reportagens de UOL e Metrópoles descreviam apenas uma mulher ou “amiga” citada nas mensagens, sem estabelecer por conta própria sua profissão.

As mensagens que deram origem ao caso

O primeiro registro relevante é de 28 de fevereiro de 2025. Uma mulher identificada nas conversas como Rayanna pergunta a Vorcaro qual seria o endereço e informa que “as meninas estão prontas”. O interlocutor identificado como “DV” — iniciais de Daniel Vorcaro — responde indicando um endereço na Rua Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, no Itaim Bibi, em São Paulo. O endereço corresponde ao Edifício Pateo Leopoldo, onde Vorcaro havia morado.
Em 3 de março, a mulher tentou novamente entrar em contato com Vorcaro, mas não obteve resposta. Quatro dias depois, em 7 de março, voltou a procurá-lo e fez a cobrança que colocou o nome “Kassio” no centro da história.
Ela escreveu que sua amiga havia ficado com “Kassio” e que estava sendo cobrada. Vorcaro então pediu os dados e o valor. A interlocutora respondeu “10”, no contexto tratado pelas reportagens como R$ 10 mil, e encaminhou dados para pagamento. O UOL afirmou que o contato enviado poderia ser utilizado para Pix; a CNN classificou o conjunto das mensagens como indicação de um possível pagamento de R$ 10 mil relacionado ao encontro.
Os prints comprovam a existência das mensagens, a organização do encontro, a referência a “Kassio” e a cobrança de R$ 10 mil. Sozinhos, porém, eles não demonstram de forma conclusiva que a pessoa chamada “Kassio” era Nunes Marques nem provam, sem outros elementos, que o ministro esteve fisicamente no imóvel ou que sabia quem arcaria com o pagamento. Metrópoles informou que Nunes Marques negou o encontro.

O endereço leva a um triplex de cerca de R$ 50 milhões

O endereço enviado na conversa corresponde a um triplex de alto padrão no Itaim Bibi. O apartamento havia sido comprado em 2022 pela Super Empreendimentos e Participações por R$ 38 milhões e foi posteriormente vendido, em outubro de 2025, por R$ 50 milhões. Vorcaro morou no imóvel por mais de dois anos.
Uma apuração de registros de cartório feita pela Alma Preta e pelo ICL acrescentou que, na época do suposto encontro, o imóvel pertencia à Super Empreendimentos e Participações S.A., empresa que teve como diretor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro. almapreta.com.br

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A Super era controlada pelo fundo Termópilas, investigado pela Polícia Federal sob suspeita de participação em irregularidades relacionadas ao Banco Master. A empresa teria adquirido diversos imóveis de luxo em São Paulo.

Não é a única conversa envolvendo Nunes Marques

O episódio dos R$ 10 mil apareceu ao lado de outras mensagens encontradas no celular de Vorcaro que mencionam o ministro ou pessoas de seu entorno.
Em outro diálogo, um agente de viagens encaminhou ao ex-banqueiro uma mensagem atribuída a Nunes Marques pedindo ajuda para montar uma viagem de aproximadamente dez dias para cinco pessoas, incluindo Viena e cidades próximas. O profissional perguntou a Vorcaro se deveria cobrar diretamente do ministro ou faturar a viagem para o banqueiro. Vorcaro respondeu para atendê-lo e, quando questionado sobre quem pagaria, pediu uma ligação. Segundo o advogado do agente, a viagem acabou não acontecendo.
Também há registros anteriores envolvendo viagens aéreas. Em novembro de 2025, Nunes Marques e a esposa viajaram de Brasília a Maceió em aeronave ligada à Prime You, empresa que teve Vorcaro entre seus acionistas. O ministro informou que estava indo ao aniversário da advogada Camilla Ewerton Ramos e que ela havia assumido os custos e a organização da viagem. A advogada atua em processos relacionados ao Banco Master e declarou que o voo era privado e contratado pessoalmente por ela.
Em abril de 2025, dois filhos de Nunes Marques receberam carona em um voo privado para Trancoso, na Bahia, oferecido pela mesma advogada.

O filho de Nunes Marques também aparece nos arquivos

Outro conjunto de mensagens extraído do celular de Vorcaro envolve Kevin Marques, filho do ministro e advogado.
Em uma conversa de julho de 2025, Luiz Rennó, então diretor jurídico do Banco Master, enviou a Vorcaro o nome e o telefone de Kevin acompanhados de uma referência a “500 mil mês”, perguntando se o pagamento seria mantido. Outros diálogos mencionam a Consult Inteligência Tributária.
Kevin Marques nega ter prestado serviços ao Banco Master ou recebido recursos diretamente de Vorcaro. Sua assessoria confirmou, porém, que ele recebeu R$ 281,6 mil da Consult Inteligência Tributária por serviços jurídicos na área tributária administrativa e afirmou que esse trabalho não tinha relação com o STF. Reportagens apontam que a Consult, por sua vez, havia recebido recursos do Banco Master.
Durante a sessão do Supremo realizada em 15 de setembro, Nunes Marques rejeitou qualquer interpretação de que seu filho tivesse trabalhado para o Master. Segundo o ministro, seu filho “nunca prestou serviço ao Master” e não teria sido remunerado pelo banco.

Nunes Marques deixou julgamento após revelações

As mensagens chegaram ao conhecimento público no mesmo dia em que o plenário do STF discutia se haveria investigação sobre relações de Alexandre de Moraes com Vorcaro. Nunes Marques anunciou que estava impedido de participar do julgamento, pediu autorização ao presidente Edson Fachin e deixou o plenário.

O que já está documentado — e o que ainda precisa ser esclarecido

O ponto mais sólido até agora é a cadeia documental: mensagens extraídas do aparelho de Vorcaro mostram uma mulher informando que havia mulheres prontas para um encontro, Vorcaro fornecendo o endereço de um imóvel que utilizava, uma cobrança posterior de R$ 10 mil, a declaração da interlocutora de que sua amiga havia ficado com alguém chamado “Kassio” e o envio de dados para pagamento.
O que ainda não está demonstrado de forma conclusiva pelos prints divulgados é a identidade do “Kassio” mencionado, a presença física de Nunes Marques no apartamento, a natureza exata do encontro e o conhecimento do ministro sobre eventual pagamento feito por Vorcaro. Nunes Marques nega o encontro. Essa distinção deve acompanhar qualquer publicação para não transformar indício em fato comprovado.