Augusto Cury tem R$ 31,5 milhões em empresa investigada por ligação com Comando Vermelho
Candidato afirma ter sido enganado e não aparece como investigado; crédito decorre de contratos rescindidos e representa cerca de 13% do patrimônio declarado ao TSE
Candidato à Presidência da República Augusto Cury (Avante) declarou à Justiça Eleitoral possuir R$ 31,5 milhões relacionados à Fictor Invest, braço financeiro do Grupo Fictor. Foto: Renato Pizzutto/Band
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O escritor e candidato à Presidência da República Augusto Cury (Avante) declarou à Justiça Eleitoral possuir R$ 31,5 milhões relacionados à Fictor Invest, braço financeiro do Grupo Fictor. O conglomerado entrou em recuperação judicial com dívidas superiores a R$ 4,2 bilhões e teve executivos alcançados por uma investigação da Polícia Federal sobre fraudes bancárias e lavagem de dinheiro.
A apuração policial ganhou ainda mais gravidade porque identificou que uma estrutura composta por empresas de fachada teria sido utilizada tanto em movimentações solicitadas por executivos da Fictor quanto por integrantes de um grupo criminoso ligado ao Comando Vermelho. As suspeitas são investigadas na Operação Fallax, que apura prejuízos potencialmente superiores a R$ 500 milhões contra a Caixa Econômica Federal e outras instituições financeiras.
Não existe, entretanto, indicação pública de que Augusto Cury seja investigado, tenha participado das operações suspeitas ou soubesse da possível utilização da estrutura criminosa. O candidato afirma que foi vítima da Fictor e que aplicou seus recursos acreditando estar participando de um negócio de compra e venda de grãos apresentado como de baixo risco.
Valor documentado é de R$ 31,5 milhões, e não R$ 35 milhões
O valor que aparece nos documentos da recuperação judicial e na declaração patrimonial apresentada por Cury ao Tribunal Superior Eleitoral é de R$ 31,5 milhões. A quantia é relacionada a contratos de Sociedade em Conta de Participação, conhecidos pela sigla SCP, que foram posteriormente rescindidos.
Nesse modelo, a empresa responsável pelo negócio atua como sócia ostensiva e administra a atividade, enquanto os investidores entram como sócios participantes, aportando recursos sem necessariamente aparecer como integrantes da estrutura societária tradicional da companhia.
Por isso, é mais preciso afirmar que Cury realizou investimentos por meio de contratos administrados pela Fictor e, após o rompimento desses contratos, passou a ter um crédito a receber. A documentação disponível não permite concluir que ele participava da gestão do grupo ou das decisões tomadas por seus executivos.
Na relação de credores apresentada à Justiça, Cury aparece entre os maiores credores individuais da Fictor. O crédito de R$ 31,5 milhões está sujeito ao processo de recuperação judicial, o que significa que seu pagamento dependerá das condições do plano negociado entre a companhia e os credores. Poderão existir prazos maiores, parcelamentos e até redução do valor a ser efetivamente recuperado.
Cury diz que acreditava investir no comércio de grãos
Em entrevista concedida após a deflagração da Operação Fallax, Augusto Cury declarou: “Eu sou vítima da empresa Fictor”. Segundo o escritor, aproximadamente quatro meses antes do pedido de recuperação judicial, ele conversou em três oportunidades com dirigentes do grupo e ingressou em uma SCP.
Cury afirmou que o dinheiro seria aplicado em uma empresa dedicada à compra e venda de grãos. De acordo com sua versão, os responsáveis pelo negócio disseram que a operação apresentava risco muito baixo. O candidato não detalhou publicamente quais verificações financeiras e jurídicas foram realizadas antes do investimento, nem se teve acesso às demonstrações contábeis, garantias ou à destinação completa dos recursos.
O escritor também afirmou esperar que a Justiça esclareça se houve corrupção, falsidade ideológica ou fraude contra credores. Segundo ele, seus advogados acompanham o caso tanto para buscar a recuperação do investimento quanto para apurar as responsabilidades dos administradores da Fictor.
Operação da PF alcançou executivos da Fictor
A Polícia Federal deflagrou a Operação Fallax em 25 de março de 2026 para investigar uma organização suspeita de praticar fraudes bancárias, estelionato, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro.
Foram expedidos 43 mandados de busca e apreensão e 21 mandados de prisão preventiva em cidades de São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia. A investigação estima que os prejuízos causados à Caixa Econômica Federal e a outras instituições possam ultrapassar R$ 500 milhões.
Entre os alvos de busca estavam Rafael Góis, fundador e CEO do Grupo Fictor, e Luiz Phillippe Gomes Rubini, ex-integrante do conglomerado que comandou a Fictor Invest. O telefone celular de Góis foi apreendido. Ser alvo de busca e apreensão não representa condenação, e as responsabilidades individuais ainda dependem do avanço da investigação e de eventual processo judicial.
Segundo a PF, o esquema empregava empresas registradas em nome de terceiros, documentos contábeis adulterados e movimentações simuladas para produzir uma aparência de atividade econômica legítima. Com históricos financeiros artificialmente fortalecidos, essas empresas conseguiam crédito e realizavam operações bancárias que, de acordo com os investigadores, não seriam aprovadas em condições normais.
Funcionários de instituições financeiras também teriam sido recrutados para inserir informações falsas em sistemas internos e viabilizar saques, transferências e concessões de crédito. Parte dos valores obtidos teria sido convertida em imóveis, artigos de luxo e criptoativos para dificultar o rastreamento do dinheiro.
O que a investigação diz sobre o Comando Vermelho
A associação com o Comando Vermelho precisa ser descrita com precisão. A Polícia Federal não afirmou que Augusto Cury financiou a facção nem que todo o Grupo Fictor pertencia à organização criminosa.
O que a investigação aponta é que uma mesma estrutura financeira, formada por dezenas de empresas supostamente fictícias, teria sido utilizada por operadores ligados ao Grupo Fictor e por células do Comando Vermelho.
A apuração é um desdobramento de investigações sobre o chamado Bonde do Magrelo, grupo criminoso atuante no interior paulista e apontado como ligado ao Comando Vermelho. Um dos principais investigados é Thiago Branco de Azevedo, conhecido como Ralado, identificado como administrador de diversos CNPJs suspeitos de funcionar como empresas de fachada.
Mensagens encontradas no telefone de Ralado indicariam contatos e relações comerciais com executivos da Fictor. Segundo o delegado responsável pela investigação, as comunicações incluem solicitações para movimentar recursos por meio dessa rede empresarial. A PF apura se a estrutura foi utilizada para simular faturamento, conseguir crédito de maneira fraudulenta e ocultar a origem de valores.
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Reportagens baseadas no inquérito apontam que aproximadamente 150 empresas de fachada teriam sido criadas. Após movimentarem recursos por determinado período, essas companhias eram encerradas antes que as operações despertassem alertas mais evidentes dos mecanismos de fiscalização financeira.
Portanto, o elo investigado não é uma prova de que todo investimento recebido pela Fictor tenha origem criminosa. A suspeita é que executivos do grupo teriam recorrido a uma engrenagem financeira que também servia a integrantes da facção. A extensão dessa relação, os valores envolvidos e a responsabilidade de cada pessoa ainda estão sendo apurados.
Fictor nega conhecer relação com a facção
Em nota divulgada após a operação, a Fictor afirmou não possuir conhecimento de qualquer relação com a organização criminosa citada na investigação. O grupo declarou que ainda não havia obtido acesso aos elementos utilizados pela Polícia Federal e que prestaria os esclarecimentos necessários quando pudesse analisar os autos.
A empresa também reafirmou seu compromisso com práticas de governança, integridade corporativa e cumprimento da legislação. A defesa de Rubini informou que o ex-executivo não teve conhecimento prévio do processo e que se manifestaria oportunamente.
As versões apresentadas pelos investigados deverão ser confrontadas com mensagens, documentos bancários, dados de empresas, aparelhos apreendidos e demais provas reunidas pela Polícia Federal.
Fictor tentou comprar o Banco Master antes de entrar em crise
O Grupo Fictor ganhou projeção nacional em novembro de 2025 ao anunciar que liderava uma tentativa de aquisição do Banco Master. A proposta mencionava investidores estrangeiros e um aporte de aproximadamente R$ 3 bilhões.
O anúncio foi realizado em 17 de novembro. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master e Daniel Vorcaro, controlador da instituição, foi preso pela Polícia Federal. A negociação não avançou.
Meses depois, a Fictor entrou em recuperação judicial. O grupo declarou um passivo superior a R$ 4,2 bilhões e atribuiu sua crise de liquidez à repercussão da operação envolvendo o Banco Master e ao aumento acelerado dos pedidos de resgate feitos por investidores.
O pedido de recuperação mostrou que milhares de pessoas haviam aplicado dinheiro em contratos de SCP. Além de Cury, a lista de credores reúne instituições financeiras, empresas, fundos, investidores individuais e entidades esportivas.
Crédito representa 13% do patrimônio declarado por Cury
Augusto Cury declarou patrimônio total de R$ 242.281.162,52 ao registrar sua candidatura à Presidência em 2026. O crédito de R$ 31,5 milhões ligado à Fictor representa aproximadamente 13% desse total.
A presença do valor na declaração eleitoral não significa que o candidato tenha R$ 31,5 milhões disponíveis em dinheiro. Trata-se de um direito de crédito cujo recebimento está condicionado ao processo de recuperação judicial e à capacidade da Fictor de pagar seus credores.
Além desse ativo, o patrimônio de Cury inclui empréstimos concedidos a empresas, participações societárias, imóveis rurais e urbanos, ações e aplicações financeiras. Com mais de R$ 242 milhões declarados, ele figura entre os candidatos mais ricos da disputa presidencial de 2026.
Investimento ocorreu antes de a operação se tornar pública
Segundo o relato do próprio candidato, as conversas que resultaram no investimento aconteceram aproximadamente quatro meses antes do pedido de recuperação judicial de fevereiro, o que situa a negociação por volta de outubro de 2025.
A Operação Fallax somente foi deflagrada publicamente em março de 2026. Embora a investigação tenha começado antes, não há prova pública de que Cury conhecesse sua existência ou soubesse das suspeitas envolvendo empresas de fachada e integrantes do Comando Vermelho quando decidiu investir.
Essa diferença cronológica impede afirmar que o escritor aplicou recursos conscientemente em uma estrutura relacionada ao crime organizado. Até o momento, as informações disponíveis o colocam como investidor e credor da Fictor, não como alvo da Polícia Federal.
Caso levanta questionamentos sobre análise de risco
Mesmo sem indícios de participação criminal, o tamanho do investimento abre questionamentos legítimos sobre os critérios utilizados por Cury para escolher a aplicação. Como candidato à Presidência e empresário que apresenta propostas para a economia, ele poderá ser questionado sobre a análise de risco, as garantias apresentadas, a relação mantida com os dirigentes da Fictor e as providências tomadas após os primeiros sinais de crise.
Também permanecem sem resposta pública a data exata de cada transferência, o valor originalmente aportado, os rendimentos eventualmente incorporados ao crédito de R$ 31,5 milhões, os documentos analisados antes da operação e a identificação completa do negócio de grãos que teria recebido os recursos.
Essas perguntas não significam que Cury tenha cometido uma irregularidade. Elas são relevantes porque o crédito representa uma parcela expressiva de seu patrimônio e está ligado a um grupo empresarial envolvido simultaneamente em recuperação judicial, apurações regulatórias e uma investigação criminal de grande alcance.
O quadro comprovado até agora é o seguinte: Augusto Cury colocou recursos em contratos administrados pela Fictor, tornou-se credor de R$ 31,5 milhões e afirma ter sido enganado; executivos do grupo foram alcançados por uma operação que investiga fraudes de até R$ 500 milhões e a utilização de uma estrutura financeira também empregada por integrantes do Comando Vermelho; e não existe indicação pública de que o candidato seja investigado ou tenha conhecimento prévio do suposto esquema.