Mendonça abre ofensiva contra Moraes, Gonet e Andrei, trio ligado a investigações que atingem Flávio
André Mendonça mandou a PF levantar, em 72 horas, todas as referências a Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues no caso Master. Os três têm atuação direta em investigações que atingem Flávio Bolsonaro
Há registros públicos que mostram que Moraes, Gonet e Andrei tiveram participação direta em procedimentos que atingem Flávio Bolsonaro ou o núcleo político da família Bolsonaro.
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A decisão do ministro André Mendonça de determinar à Polícia Federal um levantamento específico sobre Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues abriu uma nova frente dentro do caso Banco Master e atingiu simultaneamente três das autoridades que ocupam posições centrais em investigações envolvendo Flávio Bolsonaro e integrantes de seu entorno político.
Mendonça deu prazo de 72 horas para que a Polícia Federal vasculhasse o material apreendido com Daniel Vorcaro e reunisse todas as referências aos três nomes. Depois de receber o relatório, o ministro encaminhou o conteúdo à Procuradoria-Geral da República e, posteriormente, retirou o sigilo dos documentos, levando para o centro do debate público mensagens, registros telefônicos e outros elementos encontrados durante a investigação.
A escolha dos três nomes chama atenção porque nenhum deles está distante dos principais problemas jurídicos enfrentados atualmente pelo núcleo Bolsonaro. Andrei Rodrigues defendeu a abertura de uma investigação específica sobre o dinheiro enviado por Vorcaro ao projeto Dark Horse; Paulo Gonet considerou que havia elementos para instaurar esse inquérito; e Alexandre de Moraes conduz procedimentos que atingem diretamente Flávio Bolsonaro.
A sequência ganhou ainda mais peso político porque, poucas horas depois da divulgação do material, Flávio passou a pedir a saída de Moraes do Supremo e também cobrou explicações de Gonet e Andrei. Nikolas Ferreira foi além e anunciou medidas para pedir investigação, afastamento cautelar e prisão preventiva de Moraes.
Mendonça mandou PF procurar todas as referências aos três
A determinação de André Mendonça surgiu depois que investigadores localizaram mensagens em que Daniel Vorcaro mencionava pessoas identificadas como “Andrei” e “Paulo” durante conversas que a Polícia Federal relacionou a Alexandre de Moraes. A partir desses registros, o ministro ordenou que a corporação produzisse um relatório reunindo todo o material existente sobre Moraes, Gonet e Andrei.
Em uma das conversas, Vorcaro indicava que seria necessário reforçar determinada questão com “Andrei e Paulo”. Em outra mensagem, o banqueiro pediu ao interlocutor que tentasse sensibilizar Andrei para postergar uma iniciativa que poderia atingir o Banco Master. Para a investigação, os nomes mencionados seriam referências ao diretor-geral da Polícia Federal e ao procurador-geral da República.
O conteúdo é relevante, mas existe uma diferença importante entre Vorcaro mencionar uma autoridade ou pedir que alguém tente influenciá-la e essa autoridade efetivamente atender ao pedido. Até agora, os registros divulgados demonstram a tentativa ou intenção de Vorcaro de buscar interlocução, mas não permitem concluir automaticamente que Gonet ou Andrei tenham praticado qualquer ato para favorecer o banqueiro.
Depois de receber o levantamento, Mendonça encaminhou o material à PGR e deu cinco dias úteis para manifestação. Ao retirar posteriormente o sigilo, o ministro tornou públicos registros que passaram imediatamente a produzir consequências políticas fora da investigação criminal.
Andrei havia pedido investigação sobre dinheiro negociado por Flávio com Vorcaro
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, é justamente uma das autoridades que tiveram atuação direta na abertura de uma frente investigativa envolvendo recursos negociados por Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.
Em junho, Andrei defendeu publicamente a necessidade de instaurar um inquérito separado para investigar o dinheiro enviado aos Estados Unidos para o projeto Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro. A Polícia Federal queria esclarecer o destino final dos recursos e verificar se parte do dinheiro poderia ter sido utilizada para outras despesas ou atividades de aliados do ex-presidente no exterior.
A investigação ganhou importância depois da revelação de mensagens e áudios mostrando que Flávio Bolsonaro havia participado pessoalmente das negociações financeiras com Vorcaro. O senador procurou o banqueiro para tratar de recursos destinados ao projeto e discutiu valores milionários relacionados à produção.
Andrei considerou que os fatos justificavam uma investigação própria, separada de outras apurações do Banco Master. A posição do diretor-geral foi decisiva para que o tema avançasse formalmente dentro da Polícia Federal.
É nesse contexto que seu nome reaparece agora de maneira completamente diferente: em vez de comandar uma apuração sobre dinheiro de Vorcaro relacionado ao núcleo Bolsonaro, Andrei passou a ser uma das três autoridades que Mendonça determinou que fossem especificamente examinadas no próprio material do banqueiro.
Gonet também apoiou abertura do inquérito do Dark Horse
Paulo Gonet teve papel semelhante no mesmo caso. Depois que a Polícia Federal apresentou os elementos relacionados aos repasses do Dark Horse, o procurador-geral da República avaliou o material e concluiu que existiam elementos suficientes para a abertura formal de uma investigação.
A manifestação de Gonet foi um dos passos necessários para que o inquérito avançasse. Posteriormente, André Mendonça autorizou a investigação sobre o destino do dinheiro enviado por Vorcaro ao projeto.
Isso cria uma situação institucional peculiar. Dois dos três nomes colocados agora sob análise específica por ordem de Mendonça — Gonet e Andrei — haviam participado diretamente da construção da investigação sobre recursos que Flávio Bolsonaro negociou com Vorcaro.
Ao mesmo tempo, o fato de Mendonça ter autorizado aquela investigação impede uma conclusão automática de que todas as suas decisões tenham como objetivo proteger Flávio. O dado, porém, não elimina a necessidade de examinar por que o ministro decidiu agora concentrar um levantamento de 72 horas justamente sobre essas três autoridades.
Moraes conduz investigações que atingem diretamente Flávio
No caso de Alexandre de Moraes, a conexão com Flávio Bolsonaro é ainda mais direta. O ministro conduz procedimentos no Supremo em que o senador aparece como investigado e já determinou diligências da Polícia Federal relacionadas a ele.
Em abril, Moraes determinou a abertura de investigação contra Flávio para apuração de possível calúnia. Em outro procedimento, também determinou que o senador comparecesse à Polícia Federal para prestar depoimento e, após o andamento das diligências, encaminhou novamente o caso para manifestação do Ministério Público.
Moraes também é uma das figuras mais confrontadas politicamente pela família Bolsonaro desde as investigações sobre ataques às instituições, atos antidemocráticos e a tentativa de ruptura institucional após as eleições de 2022. Jair Bolsonaro foi condenado em processo relacionado à trama golpista, ampliando ainda mais o conflito entre o ministro e o grupo político.
Assim, Moraes, Gonet e Andrei não são apenas três autoridades mencionadas casualmente nos arquivos de Vorcaro. Os três ocupam posições capazes de produzir consequências jurídicas concretas para integrantes da família Bolsonaro.
Novo repasse de R$ 8,5 milhões apareceu no mesmo dia
Enquanto o material sobre Moraes, Gonet e Andrei dominava o debate político, outro documento relacionado ao Banco Master trouxe uma informação diretamente ligada ao projeto negociado por Flávio Bolsonaro.
Um relatório do Coaf identificou um repasse adicional de US$ 1,6 milhão, cerca de R$ 8,5 milhões na cotação da época, feito por Daniel Vorcaro ao Havengate Development Fund, estrutura relacionada aos recursos destinados ao Dark Horse. A transferência ocorreu em setembro de 2025.
Com esse pagamento, o volume identificado de recursos atribuídos a Vorcaro destinados ao fundo chegou a aproximadamente US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 63,7 milhões. Também existem indícios de outro pagamento que ainda precisa ser esclarecido.
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A revelação é relevante porque Flávio havia participado diretamente das tratativas com Vorcaro para conseguir recursos para o filme. Mensagens e áudios divulgados anteriormente registraram conversas do senador com o banqueiro sobre valores milionários necessários para financiar a produção.
Questionado nesta terça-feira sobre o novo repasse de R$ 8,5 milhões, porém, Flávio afirmou não possuir informações e orientou que as perguntas fossem feitas à produtora responsável pelo projeto.
Flávio cobra os três e pede que Moraes deixe o STF
No mesmo dia em que evitou responder sobre o novo repasse relacionado ao Dark Horse, Flávio Bolsonaro adotou uma postura muito mais dura diante dos documentos liberados por Mendonça.
O senador afirmou que Alexandre de Moraes não teria condições de permanecer no Supremo caso fossem confirmadas irregularidades relacionadas a Daniel Vorcaro e defendeu que o ministro deixe a Corte. Flávio também ampliou a cobrança para Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, dizendo que ambos deveriam prestar esclarecimentos sobre as mensagens e referências encontradas pela Polícia Federal.
A ofensiva política não ficou restrita ao senador. Nikolas Ferreira anunciou que pretende apresentar medidas contra Moraes envolvendo pedido de investigação, afastamento cautelar e prisão preventiva. Parlamentares da oposição também passaram a discutir uma nova tentativa de impeachment do ministro no Senado.
O ponto objetivo é que a exposição determinada por Mendonça produziu efeito político imediato contra exatamente as três autoridades colocadas no relatório específico da PF. Isso não comprova qualquer coordenação prévia entre o ministro e parlamentares bolsonaristas, mas demonstra uma consequência concreta da retirada do sigilo.
O que os documentos realmente mostram sobre Gonet
A divulgação de informações relacionadas a Paulo Gonet também exige uma leitura cuidadosa. O material indica que Daniel Vorcaro não possuía diretamente o telefone do procurador-geral da República e que eventuais contatos eram intermediados pelo advogado Ciro Soares.
Em março de 2025, Ciro enviou a Vorcaro uma fotografia em que aparecia ao lado de Gonet. Em seguida, escreveu mensagens indicando que o procurador-geral queria falar com o banqueiro. Logo depois foram registradas quatro chamadas de voz entre Vorcaro e o telefone de Ciro, com durações de 57 segundos, 27 segundos, 17 segundos e três minutos e 49 segundos.
Os registros demonstram que houve uma tentativa de colocar Vorcaro em contato com Gonet, mas não permitem afirmar que as quatro chamadas tenham sido necessariamente conversas diretas entre o banqueiro e o procurador-geral. Também existem mensagens posteriormente encaminhadas por Ciro e atribuídas a Gonet, além de registros relacionados à participação de um filho do procurador-geral em evento organizado por Vorcaro.
Esses fatos justificam esclarecimentos, mas não constituem por si mesmos prova de atuação da PGR para beneficiar o Banco Master.
No caso de Andrei, mensagem mostra tentativa de influência — não resposta do diretor
O material relacionado a Andrei Rodrigues apresenta situação semelhante. Em uma das mensagens, Vorcaro afirma que seria importante conseguir atrasar uma determinada iniciativa da Polícia Federal e pede ao interlocutor que tente sensibilizar o diretor-geral.
A mensagem demonstra que Vorcaro acreditava que uma intervenção sobre Andrei poderia ajudar o Banco Master e queria que alguém tentasse agir nesse sentido. O que não aparece, pelo menos no material tornado público até agora, é uma resposta de Andrei aceitando o pedido ou uma prova de que tenha efetivamente retardado alguma ação para favorecer o banqueiro.
Essa diferença ganha ainda mais importância diante do histórico posterior do próprio diretor-geral, que meses depois defendeu a abertura de investigação sobre os recursos de Vorcaro relacionados ao Dark Horse e ao núcleo Bolsonaro.
Andrei considera ordem de Mendonça ilegal e aponta abuso de autoridade
A reação do diretor-geral da PF à determinação de Mendonça abriu uma crise entre a cúpula da corporação e o ministro do Supremo.
Andrei afirmou a interlocutores que considera que a ordem pode configurar abuso de autoridade e classificou a determinação como ilegal. Na avaliação dele, o procedimento também pode provocar nulidades, isto é, levar ao questionamento ou eventual invalidação de atos derivados da medida.
O ponto central da divergência é saber se Mendonça apenas determinou uma análise de provas que já estavam legalmente apreendidas ou se, ao mandar produzir um relatório específico sobre Moraes, acabou iniciando na prática uma investigação contra outro ministro do Supremo.
A interpretação defendida por Andrei é que uma investigação desse tipo contra integrante do STF precisaria passar pelo plenário da Corte. Mendonça, posteriormente, indicou que pretende justamente submeter ao conjunto dos ministros eventual abertura formal de investigação contra Moraes.
A divergência, portanto, não é sobre a necessidade de examinar fatos relevantes encontrados pela PF, mas sobre até onde Mendonça poderia avançar sozinho antes de levar o caso ao plenário.
Os três nomes têm um ponto em comum
Quando os acontecimentos são colocados lado a lado, surge uma conexão objetiva que independe de qualquer hipótese de conspiração.
Andrei Rodrigues comandou a movimentação da Polícia Federal para investigar o destino do dinheiro enviado por Vorcaro ao Dark Horse. Paulo Gonet considerou que havia elementos suficientes para a abertura daquele inquérito. Alexandre de Moraes, por sua vez, conduz procedimentos diretamente relacionados a Flávio Bolsonaro.
Agora, os três foram reunidos em um levantamento específico determinado por Mendonça, tiveram informações sobre suas relações com Vorcaro tornadas públicas e passaram, poucas horas depois, a sofrer uma ofensiva política de Flávio Bolsonaro e seus aliados.
Ao mesmo tempo, o próprio Flávio enfrenta novas perguntas sobre mais R$ 8,5 milhões identificados no fluxo financeiro de Vorcaro relacionado ao projeto que ele ajudou a negociar.
Nenhum desses fatos, isoladamente ou em conjunto, permite afirmar que exista uma operação previamente combinada entre Mendonça e o bolsonarismo. Mas a coincidência entre os nomes atingidos, as funções que exercem nas investigações e o aproveitamento político imediato do material é concreta e pode ser verificada.
É justamente essa sequência — e não uma teoria previamente construída — que coloca a decisão de Mendonça no centro de uma disputa institucional envolvendo o STF, a Procuradoria-Geral da República, a direção da Polícia Federal e o núcleo político de Flávio Bolsonaro.