Mensagem contradiz versão de Mendonça; iniciativa do encontro com Vorcaro partiu do próprio ministro

Gabinete afirma que reunião ocorreu por iniciativa do banqueiro, mas registros anteriores mostram intermediário dizendo por escrito e em áudio que André Mendonça queria recebê-lo.

Mensagem contradiz versão de Mendonça; iniciativa do encontro com Vorcaro partiu do próprio ministro
Em 16 de fevereiro de 2025, Ciro Rocha Soares atribui a André Mendonça o interesse em receber Daniel Vorcaro. Foto; Reprodução
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Uma mensagem enviada ao então controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, contradiz o ponto central da versão apresentada pelo ministro André Mendonça sobre a origem do encontro reservado entre os dois, realizado em março de 2025, em São Paulo.
Em nota divulgada à imprensa após a revelação da reunião, o gabinete de Mendonça afirmou que o ministro recebeu Vorcaro uma única vez, “por iniciativa do empresário”, e se limitou a ouvi-lo. Registros obtidos pelo jornalista Paulo Motoryn apresentam outra narrativa: em 16 de fevereiro de 2025, o advogado Ciro Rocha Soares escreveu a Vorcaro que “A.M. quer recebê-lo” e pediu que o encontro fosse marcado com urgência.
A mensagem atribui a Mendonça o interesse inicial pela reunião. Ela não foi escrita pelo ministro e, isoladamente, não prova que Ciro reproduziu com exatidão uma manifestação direta de Mendonça. A divergência, porém, é objetiva: o intermediário comunicou ao banqueiro que o ministro queria recebê-lo; o gabinete sustenta que a iniciativa partiu do próprio Vorcaro.

O registro que contraria a nota

Às 17h47 de 16 de fevereiro, Ciro tentou falar com Vorcaro e informou que o assunto era urgente. Na sequência, escreveu: “A.M. quer recebê-lo. E preciso agendar o quanto antes”. O advogado acrescentou que era “muito importante” que o banqueiro fosse ao encontro acompanhado por ele.
Vorcaro respondeu com um ponto de interrogação e, um minuto depois, autorizou o agendamento: “Marca quarta”. Ciro pediu então que o empresário telefonasse para que pudesse explicar a situação.

Em 16 de fevereiro de 2025, Ciro Rocha Soares atribui a André Mendonça o interesse em receber Daniel Vorcaro. A imagem deve ser identificada como reconstituição jornalística, e não como captura original do WhatsApp.

Áudio repete a mesma versão

Logo depois das mensagens, Ciro enviou um áudio de 1 minuto e 39 segundos. Na gravação, voltou a dizer que Mendonça queria receber Vorcaro e afirmou que havia dado uma “balançada” no ministro sobre o assunto que seria apresentado.
Ciro também declarou que Mendonça conhecia a situação relacionada ao Banco Central porque ele e o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) já teriam conversado com o ministro. Mendonça nega que a situação do Master perante o Banco Central tenha sido tratada no encontro.

Ciro afirma que Mendonça queria receber Vorcaro, diz ter deixado o ministro “balançado” e atribui a ele conhecimento prévio sobre uma situação envolvendo o Banco Central.

A voz de Mendonça não aparece nesse áudio. A gravação comprova o que o intermediário disse a Vorcaro, não o que o ministro efetivamente teria dito a Ciro. A convergência entre a mensagem escrita e o áudio, enviados na mesma sequência, torna necessário esclarecer por que a nota oficial atribuiu a iniciativa exclusivamente ao empresário.

A aproximação vinha de dias antes

Os registros indicam que a articulação não começou em 16 de fevereiro. No dia 7 daquele mês, Ciro tentou telefonar repetidamente para Vorcaro e informou que estava com “André M.”. No dia seguinte, encaminhou uma fotografia ao lado de Mendonça, aparentemente feita em uma alfaiataria, seguida de um áudio de seis segundos.
“FALA, VORCARINHO”

Ao lado de Mendonça em uma alfaiataria, Ciro diz a Vorcaro que estava “trabalhando” por ele. O áudio não esclarece a natureza desse trabalho nem comprova contratação formal.

Primeira tentativa de reunião

Uma primeira reunião foi planejada para 19 de fevereiro, às 16h. Em outro áudio, Ciro pediu que Vorcaro telefonasse para Bruno Bianco, ex-advogado-geral da União e posteriormente advogado ligado ao Master, para que os dois preparassem uma apresentação antes do encontro com Mendonça.

Ciro orienta Vorcaro a chamar Bruno Bianco para preparar a apresentação que seria feita ao ministro.

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O encontro não ocorreu no horário previsto. A agenda e os registros do STF mostram que Mendonça estava em Brasília, participando presencialmente da sessão plenária daquela tarde. As conversas não esclarecem se o compromisso foi cancelado ou apenas remarcado.

O encontro foi remarcado por Cezinha

Em 13 de março, Cezinha de Madureira enviou a Vorcaro a confirmação de uma reunião com André Mendonça no dia seguinte, às 17h, em São Paulo. O deputado informou o endereço da Alameda Santos, 647, 16º andar, onde funcionava o Instituto ITER, fundado pelo ministro em 2023.
Vorcaro respondeu “Show” e “Marcado”. Cezinha afirmou que estaria no local para recebê-lo e repetiu a data e o horário do compromisso.

DATA, HORÁRIO E ENDEREÇO


Cezinha de Madureira informa a Vorcaro onde e quando ocorreria a reunião. A imagem deve ser identificada como reconstituição jornalística.

A reunião aconteceu em 14 de março

No dia do encontro, às 16h37, Vorcaro avisou que estava a caminho. Depois de uma ligação de 20 segundos entre os dois, Cezinha escreveu, às 16h43: “Ministro já está te esperando”.

“MINISTRO JÁ ESTÁ TE ESPERANDO”


Cezinha informa que Mendonça já aguardava Vorcaro no local marcado. A imagem deve ser identificada como reconstituição jornalística.
Mensagens trocadas por Vorcaro com seu motorista indicam que o banqueiro chegou ao endereço pouco depois das 16h30 e saiu por volta das 18h40. O intervalo demonstra permanência aproximada de duas horas no prédio, mas não prova que a conversa direta com Mendonça tenha durado todo esse tempo. O ministro declarou que o diálogo durou entre 20 e 30 minutos.

A versão oficial de Mendonça

O gabinete de André Mendonça confirmou que o ministro recebeu Vorcaro uma única vez em março de 2025. Segundo a nota, a iniciativa partiu do empresário, e Mendonça se limitou a ouvi-lo sobre a Suspensão de Tutela Provisória 976, processo relacionado a créditos de precatórios.
Mendonça também informou ter recebido, separadamente, o advogado de Vorcaro naquele mesmo mês e afirmou que os memoriais entregues sobre o caso permanecem nos registros de seu gabinete. Acrescentou que sua atuação jurisdicional foi contrária à posição defendida pelo empresário.
Questionado sobre as mensagens e os áudios de Ciro, o ministro afirmou que não comenta conversas privadas entre terceiros. A resposta não esclarece se autorizou o advogado a transmitir que queria receber Vorcaro nem por que o intermediário repetiu essa informação por escrito e em áudio.

O que os documentos permitem afirmar

Os registros comprovam que Ciro disse a Vorcaro, em mensagem e áudio, que Mendonça queria recebê-lo; que intermediários organizaram ao menos duas datas; que Cezinha marcou a reunião de 14 de março; e que o encontro foi realizado e posteriormente confirmado pelo ministro.
O material não contém mensagem enviada diretamente por Mendonça, gravação da conversa entre ministro e banqueiro ou prova de promessa, pressão sobre o Banco Central, vantagem indevida ou decisão destinada a beneficiar o Master. Por isso, a atribuição da iniciativa ao ministro depende do relato contemporâneo feito pelo intermediário a Vorcaro e deve ser apresentada com essa ressalva.

Reunião precedeu a relatoria em 11 meses

O encontro ocorreu em 14 de março de 2025. Mendonça assumiu a relatoria das investigações envolvendo o Banco Master em 12 de fevereiro de 2026, cerca de 11 meses depois, após Dias Toffoli deixar a condução dos processos.
Não há evidência de que Mendonça tenha interferido na redistribuição ou de que a reunião anterior tenha orientado decisões posteriores. O contato ganhou relevância institucional quando ele passou a conduzir casos diretamente relacionados a Vorcaro.

Perguntas ainda sem resposta

O gabinete ainda pode esclarecer quem solicitou originalmente a audiência; se Mendonça autorizou Ciro a comunicar que desejava receber Vorcaro; quem participou da conversa; se houve registro formal da reunião; e se a situação do Master no Banco Central foi mencionada, como afirmou o advogado no áudio.