Vorcaro mandou entregar dinheiro vivo em malas após cobranças de Flávio, afirma delator

Dono da Entre Investimentos apresentou datas, valores e endereços de entregas realizadas a pedido de Daniel Vorcaro; investigação tenta descobrir a origem e o destino final dos recursos

Vorcaro mandou entregar dinheiro vivo em malas após cobranças de Flávio, afirma delator
Antônio Carlos Freixo Júnior, dono da Entre Investimentos, fechou acordo de colaboração relacionado aos pagamentos do filme Dark Horse. Foto: Democrático News.
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Uma nova colaboração premiada fechada pela Procuradoria-Geral da República acrescentou informações inéditas à investigação sobre o financiamento de Dark Horse, filme que retrata a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como “Mineiro” e dono da Entre Investimentos e Participações, detalhou pagamentos realizados a pedido de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O empresário também relatou diversas entregas de dinheiro vivo transportado em malas e forneceu aos investigadores datas, valores e os endereços onde as operações teriam ocorrido.
A Entre aparece em documentos bancários como responsável por enviar recursos ao Havengate Development Fund, fundo sediado no Texas, nos Estados Unidos, que administrava o dinheiro destinado à produção cinematográfica.
A colaboração estabelece, portanto, uma conexão entre Freixo, Vorcaro e a estrutura utilizada para financiar o filme. Ainda não está publicamente comprovado, porém, que as quantias transportadas fisicamente em malas faziam parte das mesmas parcelas enviadas ao Havengate. Essa é uma das questões que a Polícia Federal e a PGR deverão esclarecer com documentos, testemunhas e registros financeiros.

A nova delação

O acordo de colaboração foi encaminhado ao ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, responsável pelas investigações relacionadas ao Banco Master e ao financiamento de Dark Horse. A delação ainda precisa ser homologada antes de produzir efeitos jurídicos.
Freixo não está preso nem utiliza tornozeleira eletrônica. Ele havia sido alvo de busca e apreensão em janeiro, durante uma nova fase da Operação Compliance Zero, que investiga possíveis fraudes financeiras envolvendo o Banco Master e empresas relacionadas ao grupo.
O empresário apresentou informações sobre pagamentos feitos por ordem de Vorcaro, remessas internacionais, movimentações em espécie e locais utilizados para entregas de dinheiro. A defesa não revelou o conteúdo completo da colaboração porque a investigação permanece sob sigilo.
A delação também poderá mostrar quem entregou, transportou ou recebeu cada quantia e se os endereços indicados pertencem a pessoas ou empresas envolvidas no financiamento do filme. Até agora, esses locais e seus destinatários não foram divulgados publicamente.

Como começou a negociação

As tratativas para financiar Dark Horse começaram no final de 2024. Em dezembro daquele ano, o empresário Thiago Miranda articulou um encontro entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro em Brasília.
As mensagens indicam que Flávio queria discutir o financiamento do “filme do presidente”. A reunião foi marcada para 11 de dezembro, na residência de Vorcaro. Pouco depois do horário previsto para o encontro, Mário Frias enviou um áudio agradecendo ao banqueiro pelo apoio à produção.

MARCAÇÃO DO ENCONTRO COM FLÁVIO BOLSONARO


Mensagem registra encontro marcado entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro em Brasília. Reprodução/Intercept Brasil.
No começo de 2025, as conversas passaram a tratar diretamente da liberação das parcelas. Em 20 de janeiro, uma mensagem atribuída a Flávio cobrava que o setor jurídico do investidor concluísse os procedimentos necessários para iniciar os pagamentos.
No dia seguinte, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e apontado como responsável pela parte operacional dos repasses, falou inicialmente em um fluxo de dez parcelas de US$ 2,5 milhões. O planejamento foi posteriormente modificado.
A versão final do cronograma previa quase US$ 24 milhões, aproximadamente R$ 134 milhões na cotação daquele período. O valor seria dividido em 14 pagamentos: duas parcelas de US$ 2 milhões e outras 12 de aproximadamente US$ 1,66 milhão.

Entre entrou na operação após dificuldades no câmbio

As mensagens mostram que os responsáveis enfrentaram obstáculos para enviar o dinheiro diretamente ao exterior. O setor de câmbio do Banco Master teria recusado algumas tentativas por causa de problemas ou inconsistências cadastrais.
Diante dessas dificuldades, Vorcaro orientou que a operação fosse realizada “via Entre”, referência à Entre Investimentos e Participações. Fabiano Zettel perguntou se poderia acionar “Minas” ou “Mineiro”, apelido pelo qual Antônio Carlos Freixo Júnior aparecia registrado no celular do banqueiro.

“VAMOS FAZER VIA ENTRE”


Conversa mostra Vorcaro orientando que a remessa internacional fosse realizada “via Entre”.
A primeira transferência documentada ocorreu em 13 de fevereiro de 2025. Um comprovante emitido pelo sistema internacional Swift registra o envio de US$ 2 milhões pela Entre Investimentos ao Havengate Development Fund.
A operação foi processada pelo Banco BS2 e enviada para uma conta do fundo vinculada ao JPMorgan Chase Bank nos Estados Unidos. No dia seguinte, Zettel encaminhou o comprovante a Vorcaro acompanhado da palavra “Filme!”, associando diretamente a transferência à produção.

COMPROVANTE SWIFT DE US$ 2 MILHÕES


Comprovante Swift registra transferência de US$ 2 milhões da Entre Investimentos para o Havengate Development Fund. Reprodução/Intercept Brasil.
Um ponto ainda não esclarecido é que o contrato entre o Havengate e a produtora Go Up Entertainment somente teria sido assinado em 24 de fevereiro, 11 dias depois da primeira transferência de US$ 2 milhões. Não foi apresentado publicamente um contrato anterior que explicasse formalmente por que o fundo recebeu o dinheiro antes da assinatura.

Sete pagamentos confirmados

Os documentos disponíveis indicam que pelo menos seis parcelas foram pagas entre fevereiro e maio de 2025.
A primeira, de US$ 2 milhões, foi transferida em 13 de fevereiro. Em 24 de março, foram registrados uma segunda parcela de US$ 2 milhões e outro pagamento de aproximadamente US$ 1,66 milhão. Mais duas parcelas de US$ 1,66 milhão foram pagas em 25 de abril, seguidas de uma nova transferência em 29 de maio.
Esses seis pagamentos somaram aproximadamente US$ 10,6 milhões, valor equivalente a cerca de R$ 61 milhões nas cotações das respectivas datas.
Em agosto de 2025, ainda existiam parcelas atrasadas. Um novo cronograma foi encaminhado a Vorcaro com o alerta de que dois pagamentos estavam vencidos e um terceiro estava próximo do prazo. O banqueiro respondeu que providenciaria duas parcelas.

PLANILHA DAS 14 PARCELAS


Planilha do financiamento de Dark Horse mostra parcelas previstas e pagamentos recebidos.
Um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras revelou posteriormente uma sétima transferência. Em 16 de setembro de 2025, mais US$ 1.666.667 foram enviados ao Havengate. O valor correspondia a aproximadamente R$ 8,5 milhões naquele período.
Com esse pagamento adicional, o total comprovadamente enviado por ordem de Vorcaro subiu para cerca de US$ 12,3 milhões, mais de R$ 65 milhões.

Pagamento ocorreu após cobrança de Flávio

A transferência de setembro aconteceu oito dias depois de uma nova cobrança feita por Flávio Bolsonaro.

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As mensagens mostram que o senador acompanhava o atraso das parcelas e procurava Vorcaro para pedir a liberação do dinheiro. A descoberta desse pagamento contradiz a versão apresentada posteriormente por Flávio de que as transferências haviam terminado em maio de 2025.
Há ainda indícios de uma possível oitava parcela. Em 22 de outubro de 2025, quando as gravações do filme já haviam começado, Flávio informou ao banqueiro que a produção estava no terceiro dia de trabalho e havia chegado “ao limite”.
Pouco depois, Thiago Miranda também perguntou a Vorcaro se ele conseguiria liberar as parcelas, alertando que a produção poderia parar. O banqueiro respondeu que havia liberado mais uma naquele dia.
Até o momento, porém, não foi apresentado publicamente um comprovante bancário que confirme essa possível oitava transferência. Caso seja localizada, a soma total enviada à estrutura ligada ao filme será superior aos US$ 12,3 milhões já identificados.

COBRANÇA DE FLÁVIO EM 22 DE OUTUBRO


Mensagem de Flávio Bolsonaro cobrando Daniel Vorcaro durante as gravações de Dark Horse.

As entregas de dinheiro em malas

Além das transferências bancárias internacionais, Freixo relatou ter realizado diversas operações em dinheiro vivo, transportado em malas, a pedido de Vorcaro.
O empresário teria mantido uma contabilidade dessas movimentações e entregado aos investigadores informações sobre datas, valores e endereços. Os locais, as quantias e os nomes dos destinatários não foram divulgados por causa do sigilo.
Freixo afirmou que não sabia qual seria o destino final do dinheiro depois das entregas. Ele também não teria citado diretamente nenhuma autoridade com foro privilegiado nessa parte de seu relato.
A existência das malas não significa, por si só, que o dinheiro foi entregue à produtora ou a integrantes da família Bolsonaro. A delação reúne, de um lado, os pagamentos relacionados ao fundo que financiava Dark Horse e, de outro, as remessas em espécie determinadas por Vorcaro.
Agora, os investigadores precisam verificar se as duas operações faziam parte do mesmo fluxo financeiro. Essa confirmação poderá ser buscada por meio de registros de acesso aos endereços, câmeras de segurança, localização de celulares, mensagens, testemunhas, documentos contábeis e movimentações bancárias realizadas nas mesmas datas.

De onde veio o dinheiro

Os documentos já conhecidos demonstram que a Entre Investimentos foi a remetente formal de pelo menos uma das transferências internacionais. As mensagens, por sua vez, atribuem a Daniel Vorcaro a decisão de liberar e acompanhar os pagamentos.
Isso ainda não esclarece completamente a origem econômica dos recursos. Não está comprovado publicamente de qual conta, empresa, fundo ou operação financeira saiu todo o dinheiro antes de chegar à Entre.
Registros compartilhados com investigadores mostram que o próprio Banco Master pagou R$ 2,329 milhões à Entre Investimentos durante 2025. Esse valor, entretanto, representa apenas uma parcela pequena diante dos mais de US$ 12 milhões enviados ao fundo norte-americano e não permite concluir que todo o financiamento tenha saído diretamente do banco.
Uma das funções da delação será justamente explicar como a Entre recebeu os recursos necessários para fazer as remessas, quais empresas participaram do caminho e qual foi a justificativa contábil apresentada para cada operação.
Também será necessário descobrir se o dinheiro pertencia pessoalmente a Vorcaro, se veio de outras empresas ligadas ao banqueiro ou se teve origem em operações sob investigação no caso Master. Nenhuma dessas hipóteses pode ser tratada como comprovada antes da análise dos documentos apresentados pelo colaborador.

O fundo ligado a advogado próximo de Eduardo

O destino das transferências bancárias era o Havengate Development Fund, registrado no Texas e administrado por Paulo Calixto, advogado de imigração próximo de Eduardo Bolsonaro.
Documentos relacionados ao filme apresentam Eduardo como participante da produção executiva, com atribuições que poderiam incluir decisões sobre captação, orçamento e administração financeira. Ele também aparece em mensagens oferecendo orientações sobre como os recursos poderiam ser enviados aos Estados Unidos.
Eduardo declarou que apenas cedeu seus direitos de imagem e negou ter recebido dinheiro do fundo. A investigação, entretanto, busca saber se todo o valor enviado ao Havengate foi efetivamente repassado à produtora ou se parte foi utilizada para pagar despesas pessoais e políticas de Eduardo nos Estados Unidos.
Essa possibilidade ainda é uma linha de investigação, e não uma conclusão. Para confirmar ou descartar a suspeita, a PF e a PGR pretendem obter os extratos completos do Havengate por meio de cooperação com autoridades norte-americanas.

CONTRATO E MENSAGEM ATRIBUÍDA A EDUARDO



Contrato de Dark Horse e mensagem atribuída a Eduardo Bolsonaro sobre remessas aos Estados Unidos.

Prestação de contas apresenta lacunas

A Go Up Entertainment, responsável por Dark Horse, contratou uma perícia privada que calculou o custo total da produção em US$ 13.393.081,29, aproximadamente R$ 75 milhões na cotação utilizada à época.
O documento afirma que todo o dinheiro utilizado no filme veio do Havengate. Desse total, aproximadamente US$ 3,7 milhões teriam sido gastos no Brasil e US$ 9,66 milhões nos Estados Unidos. Isso significa que cerca de 72% das despesas declaradas ocorreram no exterior, embora grande parte das gravações tenha sido realizada no Brasil.
A perícia não apresentou publicamente uma relação detalhada de todos os fornecedores, contratos, notas fiscais, datas e beneficiários. Também não explicou de maneira completa a diferença entre os US$ 12,3 milhões comprovadamente enviados por ordem de Vorcaro e os US$ 13,39 milhões que a produtora declarou ter recebido do fundo.
Flávio Bolsonaro havia prometido apresentar uma prestação de contas em até 30 dias, mas não divulgou os documentos anunciados. Posteriormente, afirmou que a perícia contratada pela produtora encerrava as dúvidas e tratou o caso como “página virada”.

O que a investigação tentará esclarecer

A colaboração de Freixo pode permitir que os investigadores preencham as principais lacunas do caso: de onde saiu o dinheiro, por quais empresas ele passou, quem autorizou cada movimentação, quem recebeu as malas e quanto efetivamente chegou à produção.
Também será necessário apurar por que o primeiro pagamento foi realizado antes da assinatura do contrato, por que a Entre foi utilizada como intermediária, qual era a relação financeira entre a empresa e o Banco Master e se houve contrapartida pelo financiamento milionário.
Outro ponto é a diferença entre os quase US$ 24 milhões inicialmente negociados, os US$ 12,3 milhões comprovadamente transferidos e os US$ 13,39 milhões declarados pela produtora como custo final do filme.
As declarações do colaborador, isoladamente, não comprovam a prática de crimes. Para terem valor em eventual processo, elas precisarão ser confirmadas por provas independentes. A homologação do acordo também não representa condenação nem atesta automaticamente que tudo o que foi relatado é verdadeiro.
Caso os documentos confirmem a contabilidade apresentada por Freixo, a delação poderá reconstruir tanto a rota bancária internacional quanto o circuito de dinheiro vivo mantido por pessoas ligadas a Vorcaro. A identificação dos endereços e destinatários das malas será decisiva para determinar se essas entregas tinham relação com Dark Horse ou se pertenciam a outras operações do grupo investigado.