Tarcísio e Bolsonaro receberam R$ 5 milhões em propina, diz Vorcaro

Ex-banqueiro afirma que pagamentos foram uma contrapartida pela manutenção do Credcesta em São Paulo; Kassab e Tarcísio negam qualquer irregularidade

Tarcísio e Bolsonaro receberam R$ 5 milhões em propina, diz Vorcaro
Daniel Vorcaro afirma que doações realizadas por seu cunhado às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas seriam contrapartidas de um suposto acordo envolvendo o Credcesta e Gilberto Kassab.
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O ex-banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em uma proposta de delação premiada, que R$ 5 milhões doados oficialmente às campanhas de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas nas eleições de 2022 teriam sido parte de um suposto acordo de propina negociado com Gilberto Kassab.
De acordo com o relato de Vorcaro, os pagamentos seriam uma contrapartida financeira para garantir que o Credcesta, um cartão de crédito consignado ligado ao conglomerado do Banco Master, continuasse operando no estado de São Paulo depois da eleição de Tarcísio.
As doações foram realizadas oficialmente pelo empresário Fabiano Campos Zettel, cunhado de Vorcaro. Os registros eleitorais mostram que Zettel destinou R$ 3 milhões à campanha de reeleição de Jair Bolsonaro e R$ 2 milhões à candidatura de Tarcísio ao governo paulista.
O fato de as doações estarem registradas na Justiça Eleitoral é comprovado. O que ainda não foi demonstrado é a acusação de que os pagamentos tinham como verdadeira finalidade garantir uma vantagem empresarial ao grupo ligado ao Banco Master.
As três versões da proposta de delação apresentadas por Vorcaro foram recusadas pela Polícia Federal e pela Procuradoria-Geral da República. As autoridades avaliaram que o ex-banqueiro não apresentou elementos novos e provas suficientes para confirmar as acusações.

Doações foram feitas nos últimos dias da campanha

Fabiano Zettel transferiu R$ 3 milhões à campanha de Bolsonaro em 10 de outubro de 2022. Três dias depois, em 13 de outubro, repassou outros R$ 2 milhões para a campanha de Tarcísio.
Na disputa presidencial, a contribuição representou aproximadamente 2,38% dos R$ 126,1 milhões recebidos pela campanha de Bolsonaro.
No caso de Tarcísio, o valor representou cerca de 5,18% dos R$ 38,6 milhões arrecadados. Zettel foi o maior doador pessoa física da campanha do então candidato ao governo paulista.
Embora as contribuições tenham sido declaradas e aprovadas no processo de prestação de contas, Vorcaro afirma que a origem política dos pagamentos seria diferente daquela apresentada formalmente.
Segundo o ex-banqueiro, as doações teriam sido realizadas por solicitação de Augusto Lima, empresário responsável pela operação do Credcesta e sócio de Vorcaro naquele período.

Suposto acordo envolveria Kassab e o Credcesta

Vorcaro declarou que Augusto Lima procurou assegurar a continuidade do Credcesta diante da possibilidade de vitória de Tarcísio em São Paulo.
Lima teria se aproximado de Gilberto Kassab, que apoiava a candidatura de Tarcísio e, depois da eleição, foi nomeado secretário de Governo e Relações Institucionais do estado.
Na versão apresentada por Vorcaro, essa aproximação teria resultado em um “ajuste indevido” que previa contrapartidas financeiras em troca da manutenção do cartão consignado no governo paulista.
O suposto acordo incluiria o repasse de 5% do resultado líquido da operação do Credcesta em São Paulo e contribuições eleitorais para o PSD e partidos politicamente ligados a Kassab.
Ainda conforme o relato, inicialmente o pagamento relacionado às campanhas seria realizado integralmente em dinheiro vivo. Interlocutores ligados ao acordo teriam informado, porém, que parte dos destinatários somente aceitaria recursos por meio de doações eleitorais oficiais.
Foi nesse contexto que teriam surgido os repasses registrados em nome de Fabiano Zettel para Bolsonaro e Tarcísio.
Não há, até o momento, documentos públicos que demonstrem a existência do suposto acordo de 5%, a participação direta de Kassab ou uma vinculação formal entre as doações e a continuidade do Credcesta.

Vorcaro também menciona R$ 10 milhões em dinheiro vivo

Além dos R$ 5 milhões registrados na Justiça Eleitoral, Vorcaro declarou que aproximadamente R$ 10 milhões teriam sido entregues informalmente em espécie.
O próprio ex-banqueiro classificou esses pagamentos como caixa dois. Segundo sua narrativa, o dinheiro teria sido destinado a pessoas indicadas como intermediárias de Kassab e posteriormente usado em campanhas do PSD.
Vorcaro afirmou que as entregas teriam sido realizadas por Thiago Botelho, conhecido pelo apelido de “Papel”.
A proposta de delação não apresenta, nos trechos conhecidos, recibos, imagens das entregas, registros de saques ou outros documentos capazes de confirmar o transporte e o destino dos R$ 10 milhões.
Também não está demonstrado quem teria recebido cada parcela, em quais locais as supostas entregas aconteceram e quais campanhas teriam sido beneficiadas.
Esses elementos são indispensáveis para que a declaração possa ser considerada mais do que uma acusação ainda sem corroboração independente.

Zettel teria sido acionado para realizar as doações

Vorcaro afirmou que procurou Fabiano Zettel para que as contribuições destinadas a Bolsonaro e Tarcísio fossem feitas oficialmente.
A justificativa apresentada na proposta é que Augusto Lima teria proximidade com políticos do Partido dos Trabalhadores e, por esse motivo, não poderia aparecer publicamente como doador de candidaturas adversárias.
Zettel, que é casado com uma irmã de Vorcaro, teria utilizado recursos originados de negócios mantidos em sociedade com o então controlador do Banco Master.

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O próprio Vorcaro, entretanto, declarou que o cunhado não teria conhecimento da suposta motivação oculta dos pagamentos. Zettel teria aceitado realizar as transferências por possuir afinidade ideológica com Bolsonaro e Tarcísio.
A afirmação de que Zettel desconhecia a verdadeira finalidade dos recursos parte exclusivamente da versão apresentada por Vorcaro e também precisa de confirmação.

O que é o Credcesta

O Credcesta é um cartão de benefício consignado voltado principalmente a servidores públicos. As parcelas e outros valores relacionados ao produto podem ser descontados diretamente da remuneração ou dos benefícios dos clientes.
A operação era conduzida pela PKL One Participações, empresa associada ao Banco Master e ligada a familiares de Augusto Lima.
Em março de 2022, durante o governo de João Doria, São Paulo autorizou que empresas credenciadas oferecessem cartões consignados a servidores civis e militares, incluindo aposentados e reformados.
A PKL One foi credenciada como consignatária em maio de 2022, ainda antes da eleição de Tarcísio. O Credcesta começou a operar no estado em julho daquele ano, durante o governo de Rodrigo Garcia.
Portanto, Tarcísio não foi o responsável pelo credenciamento inicial da empresa. A acusação apresentada por Vorcaro trata de uma suposta negociação para garantir a continuidade da operação depois da mudança de governo.
Segundo a proposta de delação, o Credcesta tornou-se um dos ativos mais importantes do grupo Master. A manutenção e a expansão do produto para outros estados teriam elevado significativamente a geração de receitas do conglomerado.

Operação teria continuado durante o governo Tarcísio

Vorcaro afirma que tanto as doações oficiais quanto os pagamentos informais foram realizados e que a contrapartida política prometida também teria sido cumprida.
O ex-banqueiro usa como argumento o fato de que o Credcesta continuou funcionando no estado por mais de um ano durante a administração de Tarcísio.
Esse dado, isoladamente, não comprova favorecimento. Para demonstrar uma eventual contrapartida, seria necessário identificar decisões administrativas tomadas fora das regras, interferências políticas no credenciamento ou benefícios concedidos exclusivamente à empresa.
Em 9 de dezembro de 2024, Tarcísio publicou o Decreto nº 69.126, que modificou as normas estaduais relacionadas às consignações. A medida ampliou a possibilidade de participação de outras instituições no mercado, não apenas do grupo ligado ao Credcesta.

Kassab classifica acusação como fantasiosa

Gilberto Kassab negou qualquer negociação envolvendo doações, dinheiro em espécie ou a operação do Credcesta.
O presidente do PSD afirmou que nunca manteve relação com Daniel Vorcaro e que jamais conversou com o ex-banqueiro pessoalmente ou por telefone.
Kassab reconheceu que conhece Augusto Lima e Thiago Botelho, mas declarou que nunca tratou com os dois sobre o Credcesta, doações eleitorais ou recebimento de valores.
Ele classificou o relato como fantasioso e sem sustentação factual. Também afirmou que nunca recebeu dinheiro em espécie ou participou das operações descritas por Vorcaro.
Mensagens apreendidas em outra frente da investigação já mostraram que Vorcaro tentou acionar pessoas próximas a Kassab em 2024 para tratar de críticas públicas ao Banco Master. Esses diálogos demonstram tentativas de aproximação política, mas não comprovam o suposto acordo de propina relatado na proposta de delação.

Tarcísio afirma desconhecer os fatos

Tarcísio declarou que nunca teve contato ou relação com Daniel Vorcaro e que não tinha conhecimento das circunstâncias mencionadas pelo ex-banqueiro.
O governo paulista ressaltou que a campanha de 2022 recebeu contribuições de mais de 600 doadores e foi conduzida de acordo com a legislação eleitoral. A prestação de contas foi apresentada e aprovada pela Justiça Eleitoral.
A administração também informou que a participação de instituições no sistema de consignações ocorre por meio de credenciamento público, regulamentado por normas anteriores ao atual governo.
No caso da PKL One, o credenciamento ocorreu em maio de 2022, durante a gestão anterior. O governo argumenta que a habilitação não representa um contrato com o Estado nem envolve transferência de dinheiro público para a empresa.
O sistema apenas permite que a instituição ofereça operações aos servidores interessados, que podem escolher entre as empresas habilitadas.

Proposta foi rejeitada por falta de provas

As acusações aparecem nas três versões da proposta de colaboração apresentadas por Daniel Vorcaro. Nenhuma delas foi aceita pela Polícia Federal ou pela Procuradoria-Geral da República.
Na avaliação das autoridades, faltaram fatos inéditos e elementos independentes capazes de comprovar as declarações.
Vorcaro voltou a demonstrar interesse em firmar uma delação durante uma audiência no gabinete do ministro André Mendonça, relator da Operação Compliance Zero no Supremo Tribunal Federal. A PGR, entretanto, rejeitou novamente a proposta.
Uma proposta de delação não transforma automaticamente o relato do colaborador em prova. Para que as acusações avancem, é necessário apresentar documentos, mensagens, registros bancários, testemunhos ou outros elementos que confirmem a narrativa.
No caso das doações, a existência e os valores estão comprovados nos registros eleitorais. Permanecem sem comprovação pública, porém, a suposta negociação com Kassab, o alegado pagamento de 5% dos resultados, a entrega de R$ 10 milhões em espécie e a afirmação de que os R$ 5 milhões declarados foram uma contrapartida pela continuidade do Credcesta.