A coligação de Lula acionou o TSE contra a candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), por uso indevido de collabs no Instagram para burlar regras de propaganda e monetizar conteúdos.
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O Tribunal Superior Eleitoral começou a analisar uma ação que aponta possível uso coordenado das chamadas “collabs” para ampliar artificialmente a distribuição de conteúdos favoráveis ao candidato Flávio Bolsonaro.
O ministro Ricardo Villas Bôas Cueva determinou que a Meta, dona do Instagram, preserve e entregue os registros técnicos das contas e das publicações investigadas. A decisão também alcança links para produtos de campanha e solicita informações à Shopee sobre lojas e afiliados envolvidos na operação.
Flávio Bolsonaro, o candidato a vice Alfredo Gaspar e o deputado Mario Frias estão entre os citados na ação.
Segundo a coligação de Lula, autora da ação, foram identificadas 1.826 publicações em formato de collab, envolvendo 492 perfis, até o dia 17 de setembro.
A acusação afirma que essas contas somavam cerca de 147 milhões de seguidores. Isso não significa que 147 milhões de pessoas diferentes tenham visto as publicações, porque uma mesma pessoa pode seguir vários desses perfis. Mesmo assim, o número ajuda a entender o tamanho da estrutura montada para espalhar o conteúdo bolsonarista.
No Instagram, uma collab permite que a mesma publicação apareça simultaneamente em mais de um perfil. Com isso, o conteúdo pode alcançar os seguidores de todas as contas participantes.
Uma ferramenta criada para parcerias entre usuários, artistas e empresas pode ter sido transformada numa poderosa máquina de distribuição política.
E aí aparece a pergunta que precisa ser respondida: essas publicações surgiram de maneira espontânea ou faziam parte de uma operação organizada pela campanha bolsonarista?
O truque para furar as regras do Instagram
As regras eleitorais determinam que as plataformas retirem das recomendações automáticas as contas oficiais de candidatos informadas à Justiça Eleitoral.
A medida existe para impedir que o algoritmo seja utilizado como um cabo eleitoral invisível.
O problema é que as collabs podem permitir que o conteúdo de um candidato continue circulando por meio de páginas de apoio, influenciadores e perfis parceiros. Dessa forma, a propaganda não dependeria apenas da conta oficial da campanha.
O candidato publica, uma rede de páginas aceita a colaboração e o material invade milhares ou milhões de telas.
Tudo com aparência de postagem comum.
É justamente essa possível coordenação que o TSE agora pretende investigar.
Política, propaganda e dinheiro
A investigação também alcança a possível exploração comercial dessa estrutura.
De acordo com as informações apresentadas na ação, alguns perfis envolvidos divulgavam links para produtos relacionados à campanha, vendidos por lojas na Shopee. A acusação cita páginas com milhões de seguidores direcionando usuários para itens comercializados na plataforma.
Portanto, a apuração não trata apenas de compartilhamentos políticos.
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O TSE quer saber quem administrava as contas, quem financiava a produção e a distribuição das publicações, se existiam pagamentos ou vantagens comerciais e se esses valores foram corretamente declarados.
A Meta e a Shopee foram chamadas justamente porque possuem os registros técnicos capazes de mostrar como essa engrenagem funcionava.
Esses dados poderão indicar horários, administradores, conexões entre contas, pagamentos, lojas beneficiadas e o verdadeiro alcance das publicações.
A direita descobriu e usou indevidamente uma nova fábrica de alcance
Durante anos, a direita brasileira tentou vender a imagem de que seu domínio nas redes sociais era completamente espontâneo.
Seria apenas “o povo se manifestando”.
Mas, quando aparecem centenas de perfis divulgando as mesmas mensagens, utilizando os mesmos recursos e beneficiando a mesma candidatura, essa versão fica cada vez mais difícil de engolir.
Não se trata de criminalizar apoiadores nem de impedir que alguém defenda seu candidato.
O que precisa ser investigado é a possível existência de uma estrutura coordenada para ampliar propaganda política, contornar as limitações das plataformas e esconder eventuais despesas de campanha.
Se tudo foi espontâneo, transparente e legal, os registros solicitados pelo TSE poderão demonstrar isso.
Se havia comando central, financiamento oculto ou vantagens não declaradas, a investigação também poderá revelar.
Ainda é uma investigação
Até o momento, o TSE determinou a preservação de provas e a entrega de informações. As quantidades de perfis e publicações foram apresentadas pela acusação e ainda serão analisadas durante o processo.
Isso significa que o assunto é sério o suficiente para a Justiça Eleitoral impedir que os dados desapareçam antes da conclusão da apuração.
A campanha terá direito de apresentar sua defesa. Depois disso, caberá ao tribunal confrontar as acusações com os registros fornecidos pelas plataformas.
Resumindo:
A campanha de Flávio Bolsonaro terá de explicar como funcionava essa enorme rede de collabs, quem coordenava as publicações, se existia dinheiro envolvido e por que alguns perfis direcionavam seguidores para produtos de campanha.
A direita vive reclamando das regras eleitorais, das plataformas e da Justiça. Mas democracia não é território sem lei.
Se uma candidatura utiliza centenas de contas para construir uma aparência de apoio espontâneo, o eleitor tem o direito de saber quem está por trás da operação e quem está pagando a conta.
Transparência não pode valer apenas para os adversários.
Agora é acompanhar os dados, cobrar respostas e não permitir que estratégias digitais sejam usadas para transformar propaganda organizada em falsa manifestação popular.