Mansão de Flávio Bolsonaro em Brasília é citada após ex-aliado afirmar que patrimônio do senador pode chegar a R$ 700 milhões. Foto: montagem/Democrático
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O ex-deputado federal Julian Lemos, que coordenou a campanha de Jair Bolsonaro no Nordeste em 2018, afirmou nesta semana que o patrimônio do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) está hoje entre R$ 600 milhões e R$ 700 milhões.
Segundo ele, o irmão Eduardo Bolsonaro, atualmente radicado nos Estados Unidos, metropoles.com teria acumulado R$ 150 milhões. Lemos não apresentou provas que sustente os valores citados.
As declarações foram dadas na segunda-feira (13/7) durante entrevista ao programa e podcastÔ Paraíba Boa, da rádio paraibana 100.5 FM, e ganharam repercussão nacional depois de serem reproduzidas pela colunista Andreza Matais, do Metrópoles.
Acrescentando que o senador "operou 24 horas por dia" durante o governo do pai para construir a fortuna.
Quem é Julian Lemos
Julian Lemos, nome artístico de Gulliem Charles Bezerra Lemos, é empresário natural de Campina Grande (PB). Ele ganhou projeção nacional em 2018 ao coordenar a campanha presidencial de Jair Bolsonaro na região Nordeste e ao integrar a equipe de transição de governo. Na mesma eleição, foi eleito deputado federal pela Paraíba pelo então PSL, com quase 72 mil votos, e cumpriu mandato na Câmara dos Deputados entre 2019 e 2023 — período em que também ocupou a vice-presidência da legenda.
Juliano Lemos condenou campanha de Jair Bolsonaro em 2018, Paraíba. Foto: divulgação.
O rompimento com o núcleo bolsonarista ocorreu ainda durante a transição de governo, depois de Lemos tomar o lado do ex-ministro Gustavo Bebianno em atritos com Carlos Bolsonaro. Já na oposição ao grupo, tentou a reeleição em 2022 pelo União Brasil, mas não conseguiu voltar à Câmara, ficando como primeiro suplente. Desde então, tornou-se um crítico público recorrente da família Bolsonaro, incluindo uma acusação — feita sem provas, em 2022 — de que Jair Bolsonaro teria agredido a primeira-dama Michelle Bolsonaro. Reportagens da imprensa também registraram que o próprio Lemos já foi alvo de três queixas por violência doméstica, prestadas por sua ex-mulher e por sua irmã entre 2013 e 2016; em todos os casos, as denunciantes posteriormente recuaram e não deram prosseguimento às ações.
O que Lemos disse sobre Eduardo
Além de comentar o patrimônio do irmão mais velho, Lemos foi duro com Eduardo Bolsonaro, hoje deputado federal licenciado. Ele descreveu o parlamentar autoexilado nos Estados Unidos como um entrave para a pré-campanha presidencial de Flávio e disse acreditar que Eduardo age sem qualquer tipo de controle dentro do grupo político da família. agorarn.com.br
A resposta — ou a falta dela
Procurada pelas reportagens que repercutiram o caso, a equipe de campanha de Flávio Bolsonaro informou que não comentará as declarações. Eduardo Bolsonaro também não se manifestou publicamente sobre o assunto até a publicação desta matéria. O próprio Julian Lemos, por sua vez, não respondeu aos pedidos de esclarecimento sobre a origem dos números que apresentou.
Da declaração de R$ 1,7 milhão à mansão à vista
O contraste entre a fala de Lemos e os registros oficiais é o que dá força à repercussão do caso. Na última eleição que disputou, em 2018, Flávio Bolsonaro declarou à Justiça Eleitoral possuir R$ 1,7 milhão em bens. Três anos depois, já no exercício do mandato de senador, ele e a mulher compraram uma mansão no Lago Sul, em Brasília, por R$ 5,97 milhões — negócio pago praticamente à vista, com apenas R$ 3,1 milhões financiados pelo Banco de Brasília.
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Se a estimativa de Lemos estiver correta, o patrimônio atual do senador representaria algo entre 344 e 402 vezes o valor declarado há oito anos — um crescimento que, segundo apurações, giraria em torno de 353 vezes.
Eduardo Bolsonaro, por sua vez, declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 1,76 milhão nas eleições de 2022. Reportagem do Intercept Brasil já havia revelado que o deputado licenciado mora atualmente no Texas, em uma casa avaliada em aproximadamente R$ 6 milhões — bem acima do que seus bens declarados sugeririam.
O caso Master e a Polícia Federal
As acusações de Lemos ganham peso adicional em meio a uma investigação da Polícia Federal que já colocou Flávio Bolsonaro no centro das atenções. O senador é investigado por sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso por fraude no Banco Master. Segundo apurações, o caso envolve o paradeiro de R$ 61 milhões de um total de R$ 134 milhões que Flávio afirma ter recebido de Vorcaro.
Paralelamente, a PF também teria encontrado o registro de uma reunião de 2020 entre Jair Bolsonaro, o então diretor-geral da Polícia Federal Alexandre Ramagem, o general Augusto Heleno e duas advogadas de Flávio — encontro que passou a integrar o inquérito sobre o uso irregular da Abin e que, segundo a corporação, teria discutido formas de neutralizar a investigação sobre as chamadas "rachadinhas" no gabinete do então deputado estadual. Flávio nega qualquer irregularidade e sustenta que a conversa tratava apenas de suspeitas de perseguição política dentro da Receita Federal.
Uma ruptura antiga
Julian Lemos não é uma voz qualquer no universo bolsonarista. Ele foi um dos principais articuladores da campanha presidencial de 2018 na região Nordeste e, na mesma eleição, conquistou uma cadeira na Câmara dos Deputados pela Paraíba. O rompimento com o núcleo da família começou ainda no período de transição de governo, em meio a atritos com Carlos Bolsonaro e com o então ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gustavo Bebianno. Desde então, Lemos se tornou um crítico público da gestão federal e das movimentações financeiras dos filhos do ex-presidente — hoje é tratado, dentro do grupo, como um dissidente.
Na mesma entrevista, o ex-deputado revelou ainda que vem votando em Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais, embora negue qualquer filiação ou simpatia partidária ao PT.
Lemos avalia que Flávio deve desistir da disputa pela Presidência da República e migrar para uma nova candidatura ao Senado pelo Rio de Janeiro — estratégia que, segundo ele, teria como principal objetivo preservar o foro privilegiado do senador. Ele também disse duvidar que a cúpula do bolsonarismo venha a apoiar uma eventual candidatura presidencial de Michelle Bolsonaro, caso a legenda opte por trocar de nome na corrida.
Independentemente do caminho escolhido, Flávio terá uma data marcada no calendário: o prazo para o registro de candidaturas junto à Justiça Eleitoral se encerra às 19h do dia 15 de agosto. Nesse momento, ele será obrigado a apresentar formalmente sua declaração de bens — seja ao Tribunal Superior Eleitoral, caso mantenha a candidatura à Presidência, seja ao Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro, caso opte pelo Senado. Será a primeira vez, em oito anos, que o patrimônio oficial do senador poderá ser comparado com os números declarados em 2018 — e, agora, também com a cifra bilionária citada por seu ex-aliado.
As falas de Lemos também repercutiram no Congresso. Parlamentares de oposição ao bolsonarismo usaram as redes sociais para cobrar explicações, questionando publicamente qual valor o senador irá declarar oficialmente em agosto diante da disparidade apontada pelo ex-coordenador de campanha.
O que ainda não se sabe
Até o fechamento desta reportagem, nenhuma das cifras citadas por Julian Lemos havia sido confirmada por documentos, órgãos de fiscalização ou pela própria Justiça Eleitoral. As declarações representam a avaliação pessoal do ex-deputado, construída a partir de sua convivência passada com a família Bolsonaro, e não devem ser tratadas como fato comprovado até que haja verificação independente. A expectativa agora recai sobre a declaração de bens que Flávio Bolsonaro deverá protocolar em agosto — documento que, pela primeira vez desde 2018, permitirá comparar oficialmente a evolução de seu patrimônio.