O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em Washington, onde tenta vender como mérito pessoal a negociação de um tarifaço que ele mesmo ajudou a articular. FOTO: Flickr
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O senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) desembarcou em Washington neste domingo (5) para participar, na terça-feira (7), de uma audiência pública do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) sobre as tarifas de 25% ameaçadas contra produtos brasileiros. A viagem, no entanto, escancara uma contradição inconveniente: o parlamentar tenta agora vender como mérito pessoal a tentativa de reverter um tarifaço que a própria família Bolsonaro ajudou a articular.
A carta que entregou o jogo
Na semana passada, Flávio enviou ao USTR um documento de 86 páginas solicitando o adiamento das tarifas — não o cancelamento — para depois das eleições de outubro. O argumento apresentado é de que a imposição imediata das sobretaxas fortaleceria politicamente o presidente Lula, adversário do senador na disputa presidencial.
Ou seja: Flávio não está nos EUA para defender o Brasil. Está para evitar que o tarifaço, cujas sementes foram plantadas por seu próprio grupo político — seja usado contra ele nas urnas.
A conta que não fecha
A avaliação do governo Lula, expressa pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, é implacável: a ida de Flávio a Washington é uma "tentativa de se livrar da responsabilidade por um eventual novo tarifaço".
"Do ponto de vista da negociação, é ineficaz porque ele vai falar sobre o que não sabe e não conhece. Do ponto de vista eleitoral, ele está indo buscar um salvo-conduto para poder concorrer sem o risco de ser acusado pelo tarifaço", afirmou Rosa em entrevista à BBC.
O ministro foi além: "Ele não me parece sincero com a mudança de opinião porque, se fosse 100% sincero, primeiro ele pediria desculpas por aquilo que eles estão patrocinando há mais de um ano contra a economia brasileira".
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A estratégia
Flávio tenta se apresentar como "interlocutor privilegiado" do presidente americano Donald Trump. Em uma live neste domingo, afirmou que Lula "é o único no mundo que quer essa tarifação" e acusou o petista de ter "lavado as mãos".
Mas o governo brasileiro já enviou respostas formais a Washington e mantém negociações diplomáticas paralelas. A participação de Flávio na audiência, com apenas cinco minutos de fala em inglês, tem caráter eminentemente político — não comercial.
O tiro que pode sair pela culatra
Para o governo, a carta de Flávio foi um presente. Ao pedir apenas o **adiamento** das tarifas, e não o cancelamento, o senador abriu espaço para Lula acusar os Bolsonaro de serem "entreguistas" e "traidores da pátria".
"A iniciativa acabou favorecendo politicamente o presidente Lula", resume a avaliação de integrantes do Planalto.
Flávio tenta se livrar de um problema que ajudou a construir. A pergunta que fica é: se ele realmente se opõe às tarifas, por que não pede o cancelamento definitivo? A resposta, exposta em suas próprias palavras, é reveladora: sua preocupação não é com a economia brasileira — é com o calendário eleitoral.