Ativo que Nikolas tentou destravar com Vorcaro renderia R$ 11,5 milhões a assessor de seu gabinete
Thiago Rodrigues de Faria ainda ocupava cargo no gabinete do deputado quando Nikolas procurou Daniel Vorcaro. Escritório do assessor participava de negociação minerária estimada em até US$ 45 milhões
Quando Nikolas Ferreira (PL-MG) procurou Daniel Vorcaro, em 30 de março de 2025, para pedir atenção a um “ativo minerário” apresentado por Thiago Rodrigues de Faria, Thiago não era apenas amigo ou advogado particular do deputado.
Ele era, naquele momento, funcionário do próprio gabinete de Nikolas na Câmara dos Deputados, onde ocupava o cargo de secretário parlamentar.
E havia um interesse econômico relevante em torno da atividade minerária do assessor. Apenas dois meses antes do contato com Vorcaro, o escritório de Thiago havia assinado contrato para participar de uma negociação envolvendo uma lavra da Topázio Imperial, em Ouro Preto (MG), estimada inicialmente em US$ 30 milhões e que poderia ultrapassar US$ 45 milhões.
Segundo trecho do inquérito da Polícia Federal reproduzido pelo Estado de Minas, a operação previa uma comissão de 20% para os intermediários caso o negócio fosse concluído.
A divisão descrita destinava 50% da comissão à Gmais Ambiental, 25% à Estabil Contabilidade e 25% ao escritório de Thiago Rodrigues.
Se a operação alcançasse o teto de US$ 45 milhões, a parcela destinada ao escritório do assessor poderia atingir US$ 2,25 milhões — aproximadamente R$ 11,5 milhões na conversão utilizada nesta reportagem.
Nikolas pediu ajuda diretamente a Vorcaro
A primeira prova está na própria conversa entre Nikolas e Daniel Vorcaro.
Em 30 de março de 2025, Nikolas enviou um áudio ao banqueiro falando sobre Thiago e sobre um ativo minerário que, segundo ele, já havia passado pela análise técnica, mas continuava pendente.
O deputado explicou a situação e se ofereceu para fazer a ponte entre Thiago e Vorcaro.
No áudio, Nikolas relata que Thiago havia lhe falado sobre o ativo e que ele respondeu que poderia entrar em contato diretamente com Vorcaro.
Depois do áudio, Nikolas encaminhou o contato de Thiago ao banqueiro.
Vorcaro respondeu:
“Amém irmão. Estamos na guerra juntos.”
No dia seguinte, Nikolas voltou a procurar Vorcaro para informar que Thiago estaria em Brasília e disponível para conversar.
“Deixa comigo”
As mensagens divulgadas não mostram se a reunião ocorreu posteriormente nem se o negócio avançou.
Thiago ainda trabalhava no gabinete de Nikolas
A segunda prova está nos registros oficiais da Câmara dos Deputados.
Thiago Rodrigues de Faria assumiu o cargo de secretário parlamentar SP24 em 9 de março de 2023.
Os registros da Câmara indicam que ele permaneceu no cargo até 17 de fevereiro de 2026.
Registro da Câmara identifica Thiago Rodrigues de Faria como secretário parlamentar SP24 do gabinete de Nikolas.
Isso significa que, em 30 de março de 2025, quando Nikolas procurou Vorcaro para falar sobre o ativo minerário de Thiago, o advogado ainda fazia parte oficialmente de seu gabinete.
Hoje Thiago é corretamente descrito como ex-assessor. Na data do contato com Vorcaro, porém, ele ainda era assessor parlamentar de Nikolas.
Quem é Thiago Rodrigues de Faria
Thiago Rodrigues de Faria é advogado e atuava na área jurídica ligada ao gabinete de Nikolas Ferreira.
Em entrevista à Repórter Brasil, em setembro de 2025, ele próprio se apresentou como coordenador da assessoria jurídica do parlamentar.
Paralelamente ao cargo parlamentar, Thiago mantinha atividade privada por meio da Thiago Rodrigues Sociedade Individual de Advocacia e afirmava atuar também com negócios relacionados à mineração.
Foi por meio desse escritório que ele apareceu na negociação minerária posteriormente mencionada em documentos relacionados à Operação Rejeito.
Contrato previa operação de até US$ 45 milhões
Em janeiro de 2025, enquanto Thiago ainda trabalhava no gabinete de Nikolas, seu escritório assinou contrato relacionado a uma negociação envolvendo a Gmais Ambiental e a Topázio Imperial Mineração, em Ouro Preto.
Segundo o Estado de Minas, que teve acesso ao inquérito da Polícia Federal, o negócio era inicialmente estimado em US$ 30 milhões e poderia ultrapassar US$ 45 milhões.
O inquérito reproduzido pelo jornal registra ainda uma comissão de 20% sobre a negociação destinada aos parceiros envolvidos.
A divisão prevista destinava 50% da comissão à Gmais Ambiental, 25% à Estabil Contabilidade e 25% ao escritório de Thiago Rodrigues. Isso significa que o escritório do então assessor de Nikolas teria direito a um quarto da comissão total caso a negociação fosse concluída nas condições previstas.
No cenário máximo mencionado no inquérito, de US$ 45 milhões, a comissão de 20% chegaria a US$ 9 milhões. Como 25% desse valor caberia ao escritório de Thiago, a parcela poderia alcançar US$ 2,25 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 11,5 milhões na conversão utilizada na reportagem.
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O valor corresponde a aproximadamente R$ 11,5 milhões na conversão utilizada nesta reportagem.
Thiago já participava da negociação desde 2024
A atuação do assessor na negociação não começou às vésperas do contato de Nikolas com Vorcaro.
Segundo documentos da investigação, em abril de 2024, Thiago participou de um grupo de WhatsApp chamado “Projeto Ferro”, utilizado para discutir termos relacionados à negociação da lavra da Topázio Imperial.
A PF identificou conversas sobre minutas e condições da operação. A versão final do contrato posteriormente teria sido encaminhada para conferência do advogado.
Em uma das conversas, Thiago perguntou sobre contato com uma pessoa identificada pela letra “R”. Segundo a investigação, a referência seria ao delegado Rodrigo Teixeira, posteriormente investigado na Operação Rejeito.
Thiago nega ter participado de qualquer irregularidade.
Empresa do negócio entrou na mira da Operação Rejeito
A Gmais Ambiental, que aparece no contrato ao lado do escritório de Thiago, posteriormente entrou no conjunto de empresas citadas na investigação da Operação Rejeito.
A operação foi deflagrada em setembro de 2025 pela Polícia Federal em conjunto com o Ministério Público Federal, Controladoria-Geral da União e Receita Federal.
Segundo o MPF, a investigação apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, crimes ambientais e irregularidades na exploração mineral.
Foram expedidos 79 mandados de busca e apreensão, 22 mandados de prisão preventiva e determinado o bloqueio de R$ 1,44 bilhão em ativos.
Segundo o inquérito reproduzido pelo Estado de Minas, a PF suspeita que a Gmais tenha sido utilizada para ocultar seus verdadeiros operadores.
Isso não significa que Thiago seja acusado de integrar a organização criminosa. O advogado afirma que sua atuação na negociação ocorreu regularmente no exercício da advocacia.
Barragem ligada à negociação enfrentava problemas
A negociação envolvendo a Topázio Imperial também possui um componente ambiental relevante.
Na área está localizada a barragem Água Fria, em Ouro Preto.
Em 2018, o Ministério Público Federal instaurou investigação sobre a segurança da estrutura após informações sobre trincas, abatimentos e problemas relacionados a procedimentos de emergência, inspeção e monitoramento.
Os problemas continuaram nos anos seguintes.
Documento da Agência Nacional de Mineração registra que o projeto de descaracterização da Água Fria sofreu atraso. A previsão, anteriormente indicada para outubro de 2024, foi transferida pela Topázio para março de 2025.
Março de 2025 foi justamente o mês em que Nikolas procurou Vorcaro para tratar do ativo minerário de Thiago.
ANM negou prorrogação semanas antes do áudio
Em 10 de fevereiro de 2025, cerca de sete semanas antes da conversa entre Nikolas e Vorcaro, a ANM publicou decisão negando à Topázio Imperial a prorrogação de prazo para diversas exigências relacionadas à barragem Água Fria.
Meses depois, em 3 de julho de 2025, a agência determinou formalmente o embargo da barragem Água Fria, por meio do Auto de Embargo nº 59/2025.
Os registros mostram que o empreendimento relacionado ao contrato do escritório de Thiago enfrentava problemas técnicos e regulatórios naquele período.
O ponto que ainda não foi esclarecido
Existe uma questão central que os documentos públicos disponíveis ainda não permitem responder:
O ativo minerário apresentado por Nikolas a Vorcaro era exatamente a negociação envolvendo a Topázio Imperial?
A proximidade entre os episódios chama atenção. O escritório de Thiago assinou o contrato da negociação minerária em janeiro de 2025. Dois meses depois, em 30 de março, Nikolas procurou Vorcaro especificamente para falar sobre um ativo minerário de Thiago.
Mas o áudio divulgado não menciona Topázio Imperial, Gmais Ambiental, barragem Água Fria ou o número do processo minerário.
Caso chegou ao STF
A identidade do ativo tornou-se uma das questões levadas ao Supremo Tribunal Federal após a divulgação das mensagens.
A deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) pediu que fossem investigados os vínculos relacionados ao episódio e que as autoridades procurassem identificar qual era o ativo minerário e quem seriam seus beneficiários.
O pedido também menciona conexões entre Thiago e pessoas e empresas que posteriormente apareceram na Operação Rejeito.
A apresentação do pedido ao STF não significa que Nikolas ou Thiago tenham sido considerados culpados de qualquer crime.
O que dizem Nikolas e Thiago
Nikolas Ferreira admite que entrou em contato com Daniel Vorcaro, mas nega irregularidades. Após a divulgação das mensagens, o deputado afirmou que o negócio não foi fechado e que nunca recebeu dinheiro do banqueiro.
Thiago Rodrigues de Faria também nega irregularidades. Ele afirmou conhecer Vorcaro de Belo Horizonte e disse que o contato ocorreu por causa de um ativo de minério. Também declarou que nunca foi chamado pela Polícia Federal para depor sobre o caso.
Sobre a negociação da Topázio, Thiago afirmou ter recebido, como advogado, uma proposta para tentar vender a área.
Nikolas declarou anteriormente que a área estava disponível no mercado, que Thiago poderia exercer atividade privada como advogado e que ele próprio não tinha participação no negócio.