O juiz Jair Francisco dos Santos, responsável pela decisão que determinou a retirada de publicações do ICL Notícias sobre Nikolas Ferreira (PL-MG) e Daniel Vorcaro, participou da cerimônia de diplomação dos eleitos em Minas Gerais em 2022. O evento ocorreu em 19 de dezembro, na Sala Minas Gerais, em Belo Horizonte, e teve Nikolas entre os parlamentares diplomados.
A presença do magistrado consta de um registro institucional da Associação dos Magistrados Mineiros, publicado no dia da solenidade. Jair Francisco é identificado como vice-presidente de Saúde da entidade, função que exercia naquele período. O documento também cita a participação do então presidente da associação, juiz Luiz Carlos Rezende e Santos.
Qual era o evento de 2022
A solenidade foi organizada pelo Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais para diplomar os vencedores das eleições no estado. Além de Nikolas, estiveram presentes o governador reeleito Romeu Zema, o vice-governador eleito Mateus Simões, o senador eleito Cleitinho e a deputada federal eleita Duda Salabert. Os registros da cerimônia descrevem a entrega dos diplomas e as manifestações da plateia para Nikolas e Duda.
A diplomação é a etapa em que a Justiça Eleitoral reconhece formalmente os eleitos e os habilita a tomar posse posteriormente. Não se tratava, portanto, da posse de Nikolas na Câmara dos Deputados nem da posse de Jair Francisco em um cargo judicial. O magistrado participou de um ato institucional coletivo, que reuniu políticos de diferentes partidos e autoridades do Judiciário.
A participação no mesmo evento está documentada. Esses registros, porém, não demonstram encontro particular, amizade ou vínculo político entre o juiz e o deputado, nem permitem atribuir a decisão judicial à presença de ambos na solenidade.
Quem é o juiz Jair Francisco dos Santos
Jair Francisco dos Santos se formou em Direito pela PUC Minas em 1998 e ingressou na magistratura mineira em 2005. Antes de se tornar juiz, trabalhou como delegado de Polícia no Distrito Federal. Sua trajetória no Judiciário inclui atuação nas comarcas de Paracatu, São Gotardo, Araçuaí, Patrocínio e Belo Horizonte.
Entre 2018 e 2022, exerceu a função de juiz auxiliar da Presidência do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, com atuação nas áreas de engenharia e segurança institucional. Também acumulou experiência como juiz eleitoral em Araçuaí, em 2008, e em Belo Horizonte, em 2024.
Em 28 de janeiro de 2025, tomou posse como membro substituto do TRE-MG para o biênio 2025–2027. Essa foi uma cerimônia diferente da diplomação dos políticos em 2022. No processo envolvendo Nikolas e o ICL, atua como juiz auxiliar da Justiça Eleitoral.
Em 6 de setembro de 2026, Jair Francisco acolheu parcialmente um pedido de Nikolas, candidato à reeleição, e deu ao ICL e à Meta 24 horas para remover a reportagem sobre o áudio e as postagens indicadas na ordem.
A reportagem atribuía ao deputado o uso de “lindão” para se dirigir a Vorcaro. Na decisão liminar, o juiz afirmou ter ouvido “Dani”, não “lindão”. Considerou que a divulgação do termo contestado comprometia a integridade da informação e justificou a urgência pela proximidade da eleição e pela velocidade de circulação dos conteúdos.
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Por que a decisão foi parcial
O juiz não aceitou todos os argumentos de Nikolas. Manteve três publicações de análise e não acolheu a contestação sobre a referência à liberação de um ativo minerário como fundamento para a retirada.
Para o magistrado, a intermediação de contato com Vorcaro sobre a pendência admitia discussão política. A medida foi liminar: não corresponde a um julgamento definitivo de todas as questões levantadas no processo.
O que mostram as conversas de Nikolas e Vorcaro
As mensagens divulgadas pelo ICL em 3 de setembro de 2026 envolvem uma conversa de 30 de março de 2025 entre o deputado e Daniel Vorcaro, empresário ligado ao Banco Master. No áudio, Nikolas apresenta uma demanda de Thiago Rodrigues de Faria, advogado e ex-assessor de seu gabinete, relacionada a um ativo minerário.
O parlamentar afirma confiar em Faria, relata que havia uma pendência na empresa do banqueiro e se oferece para encaminhar o contato do advogado. Também diz não conhecer os detalhes do assunto. Na sequência das mensagens publicadas, Nikolas envia o contato, e Vorcaro orienta que Thiago o procure.
O material divulgado não permite estabelecer se a ajuda foi efetivamente prestada ou se algum negócio foi concluído.
Críticas públicas ao Master também aparecem no áudio
Na mesma gravação, Nikolas comenta publicações nas quais havia criticado um evento jurídico realizado em Londres, em 2024, com financiamento do Banco Master. O deputado menciona uma conversa com o pastor André Valadão e afirma que não sabia, naquele momento, que o banco era de Vorcaro.
Nikolas afirma que não teria feito a publicação sem antes conversar caso soubesse dessa ligação com o banco. Ao final do áudio, também manifesta o desejo de marcar um encontro com Vorcaro.
Vorcaro afirmou ter bancado voos de Nikolas
Outra conversa, de abril de 2024, mostra Vorcaro reclamando das publicações de Nikolas ao empresário Flávio Carneiro. Nesse diálogo, o banqueiro afirma ter custeado todos os voos do deputado e ameaça divulgar a informação.
Nas mensagens, Vorcaro não informa quantos voos teria pago, os valores ou o período. O diálogo, portanto, não permite estabelecer a extensão do custeio alegado.
O que dizem Nikolas e o ICL
Em manifestação nas redes sociais após a divulgação das conversas, Nikolas negou ter recebido dinheiro de Vorcaro e afirmou que nunca se encontrou pessoalmente com o banqueiro. Também contestou o uso da expressão “lindão” e negou que o contato relativo à mineração tenha resultado em acordo financeiro.
O ICL, por sua vez, reafirmou a reportagem e declarou ter utilizado transcrições oficiais dos áudios investigados. Em nota, a defesa do veículo e a jornalista Juliana Dal Piva classificaram a ordem como censura e sustentaram que uma eventual divergência sobre uma palavra não justificaria retirar a reportagem inteira.
A defesa também afirmou que não apresentaria documentos que colocassem em risco o sigilo da fonte e anunciou que utilizaria os instrumentos jurídicos disponíveis para tentar reverter a decisão.