Submisso aos EUA, Flávio Bolsonaro propõe o “AFTA”, acordo falido que prende a economia do Brasil
Senador propõe um “Afta” para incluir o Brasil no bloco comercial norte-americano justamente quando Trump se recusa a renovar, nos termos atuais, o acordo que substituiu o Nafta
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Flávio Bolsonaro apresentou em Washington uma solução aparentemente simples para um dos assuntos mais complexos da economia mundial: retirar a letra “N” de Nafta e criar um “Afta”, um Acordo de Livre Comércio das Américas que incluiria o Brasil ao lado de Estados Unidos, México e Canadá.
A frase pode funcionar em vídeo de rede social. Como política comercial, porém, a conta não fecha.
A proposta foi apresentada pelo senador e pré-candidato à Presidência durante audiência pública realizada pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos, o USTR, em 7 de julho. O órgão norte-americano analisa a imposição de uma tarifa adicional de 25% sobre grande parte dos produtos brasileiros.
Flávio afirmou que as economias brasileira e norte-americana seriam complementares e que a criação do bloco abriria uma “avenida de oportunidades” para investimentos dos Estados Unidos no Brasil. Para explicar sua ideia, sugeriu “cortar essa letrinha N” do antigo Nafta.
O Nafta deixou de existir em 1º de julho de 2020. Ele foi substituído pelo USMCA, acordo comercial entre Estados Unidos, México e Canadá, chamado de T-MEC pelos demais integrantes.
O segundo problema é ainda mais constrangedor para a proposta de Flávio. Em 1º de julho de 2026, poucos dias antes da audiência, o governo Trump recusou renovar automaticamente o USMCA em sua forma atual.
Isso não significa que Trump tenha retirado imediatamente os Estados Unidos do acordo. O tratado continua em vigor e entra agora em um processo de revisões anuais. Mas significa que o próprio governo norte-americano considera inadequadas as regras atuais e pretende renegociá-las.
Flávio, portanto, oferece ao Brasil a entrada em uma estrutura comercial que Washington acaba de colocar sob incerteza.
É como oferecer sociedade em um negócio no momento em que o principal sócio avisa que não aceita renovar o contrato nas condições existentes.
A confusão também aparece no nome escolhido.
A sigla AFTA já é utilizada internacionalmente para designar a Área de Livre Comércio da Associação das Nações do Sudeste Asiático. Nas Américas, a tentativa de criação de um bloco continental foi chamada de FTAA, em inglês, e de ALCA, em português. O projeto foi lançado na Cúpula das Américas de 1994, mas nunca entrou em vigor.
Na prática, Flávio não apresentou uma ideia nova. Ele reciclou a antiga ALCA, trocou o nome e tratou décadas de negociações comerciais como se tudo pudesse ser resolvido eliminando uma letra.
Há ainda um obstáculo que o senador praticamente ignorou: o Mercosul.
O Brasil integra uma união aduaneira com Argentina, Paraguai, Uruguai e Bolívia. A Decisão 32/2000 do Mercosul reafirma o compromisso dos países-membros de negociar conjuntamente acordos comerciais que concedam preferências tarifárias a terceiros.
Existe discussão jurídica sobre a aplicação interna dessa decisão, mas politicamente e institucionalmente o Brasil não pode simplesmente entrar em um bloco comercial norte-americano por decisão isolada de um presidente. Seria necessário enfrentar a tarifa externa comum, as regras de origem, os compromissos com os parceiros e o próprio futuro do Mercosul.
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Flávio também citou como inspiração o acordo comercial assinado entre Donald Trump e o presidente argentino Javier Milei.
A comparação é enganosa.
O acordo entre Estados Unidos e Argentina prevê redução ou eliminação de tarifas para listas específicas de produtos. Não se trata de tarifa zero generalizada, nem da entrada da Argentina no USMCA. É um entendimento bilateral, com concessões delimitadas e diversas condições comerciais.
Mas a maior contradição da viagem de Flávio está em outro ponto.
No documento entregue oficialmente ao USTR, o senador não pediu simplesmente o cancelamento definitivo das tarifas contra o Brasil. Ele defendeu a suspensão da medida e a criação de um mecanismo que permitiria sua retomada após 180 dias.
O texto também dedica uma seção específica ao calendário eleitoral brasileiro e argumenta que a imposição das tarifas antes da eleição de outubro poderia fortalecer Lula e o discurso de soberania nacional da esquerda.
Embora o documento tente afirmar que a proposta estaria baseada na legislação comercial, e não na eleição, o próprio pedido defende o adiamento da medida para depois do voto dos brasileiros.
É desse ponto que o apelido “TariFlávio” ganha força política.
Não porque o senador tenha pedido a aplicação imediata da tarifa, mas porque sua estratégia admite que Washington mantenha a ameaça carregada, preserve os resultados da investigação e volte a disparar a medida depois do período eleitoral.
O Palácio do Planalto respondeu acusando Flávio de “traição à Pátria”. A crítica pode ser feita de maneira mais objetiva: um pré-candidato à Presidência foi aos Estados Unidos pedir que uma potência estrangeira ajustasse o calendário de sua pressão econômica ao calendário eleitoral brasileiro, em benefício próprio.
Um acordo comercial desse tamanho exige estudos sobre indústria, agricultura, empregos, serviços, compras governamentais, propriedade intelectual, regras ambientais, solução de controvérsias e impacto sobre cada setor da economia.
Não se constrói política externa séria com uma brincadeira de letras.
O tarifaço de Trump deve ser rejeitado porque transforma o comércio em instrumento de pressão política e econômica. Mas a resposta brasileira também não pode ser improvisada, subordinada a interesses eleitorais ou vendida como slogan de campanha.
Flávio tentou cortar o “N” do Nafta.
Esqueceu de estudar o tratado que substituiu o Nafta, a crise provocada por Trump, as obrigações do Mercosul e os riscos para o Brasil.
Em comércio internacional, cortar uma letra é fácil.
O difícil é impedir que a improvisação corte empregos, empresas e a soberania do país.
Flávio Bolsonaro precisa estudar mais, entender como funcionam os acordos entre as nações, com essa sua atitude ele só tem provado que é totalmente despreparado para o exercício do cargo de mandatário máximo do Brasil.