Repasse negociado por Flávio para filme ocorreu antes da assinatura de contrato
Primeiros US$ 2 milhões chegaram ao fundo ligado à produção 11 dias antes da formalização do acordo com a produtora; documento anterior não foi apresentado
O primeiro repasse relacionado ao financiamento de Dark Horse, filme baseado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, foi realizado antes da assinatura do contrato apresentado para formalizar o investimento na produção.
Um comprovante bancário registra que US$ 2 milhões foram transferidos pela Entre Investimentos e Participações ao fundo norte-americano Havengate Development Fund LP em 13 de fevereiro de 2025. O contrato entre o Havengate e a Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme, foi assinado somente em 24 de fevereiro daquele ano, 11 dias depois.
A informação sobre a data do contrato consta em uma perícia privada contratada pela defesa da produtora e anexada a um inquérito da Polícia Civil de São Paulo. O documento foi elaborado para sustentar que o filme recebeu recursos privados e não foi financiado com dinheiro público.
A sequência das movimentações indica que o dinheiro começou a chegar ao fundo enquanto a relação de investimento com a produtora ainda não havia sido formalizada pelo contrato mencionado no laudo.
Até o momento, não foi divulgado um documento anterior que demonstre sob quais condições o primeiro aporte foi realizado e como a transferência já estava vinculada ao filme antes da formalização do acordo entre o Havengate e a Go Up.
Negociação começou antes do primeiro pagamento
Reportagens do The Intercept Brasil baseadas em mensagens, áudios, planilhas e registros bancários apontam que Flávio Bolsonaro participou diretamente da negociação para que Daniel Vorcaro financiasse o filme sobre Jair Bolsonaro.
As conversas sobre o financiamento teriam começado, pelo menos, em dezembro de 2024. Naquele mês, Vorcaro conversou com o empresário Thiago Miranda sobre o projeto e afirmou que havia marcado um encontro com Flávio em Brasília.
Em 20 de janeiro de 2025, Miranda encaminhou ao banqueiro uma captura de tela de uma mensagem atribuída a Flávio. Nela, o senador solicitava que o setor jurídico do investidor fosse pressionado para concluir o processo relacionado ao financiamento.
No dia seguinte, Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, informou ao banqueiro que o filme teria um fluxo específico de pagamentos. A proposta discutida inicialmente previa dez parcelas de US$ 2,5 milhões. O modelo foi posteriormente alterado para um cronograma de quase US$ 24 milhões.
Essas conversas ocorreram antes da primeira remessa de US$ 2 milhões e antes da assinatura do contrato de investimento entre o Havengate e a produtora.
Remessa encontrou dificuldades no setor de câmbio
As mensagens também mostram que os envolvidos enfrentaram problemas para realizar a transferência internacional.
Segundo o Intercept, Fabiano Zettel informou a Vorcaro que o setor de câmbio do Banco Master havia recusado a operação e identificado inconsistências cadastrais. Após as dificuldades, o banqueiro teria orientado que o pagamento fosse feito por meio da Entre Investimentos e Participações.
O Grupo Entre nega possuir vínculo societário, de controle ou de governança com Daniel Vorcaro. A empresa afirmou que permanece à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
Apesar da negativa, documentos e mensagens publicados pelo veículo apontam relações operacionais entre pessoas ligadas ao grupo e o banqueiro. Antônio Carlos Freixo Júnior, executivo relacionado à Entre Investimentos, aparece nas conversas pelo apelido de “Mineiro” e teria sido acionado para auxiliar na execução dos pagamentos.
US$ 2 milhões foram enviados antes do contrato
O comprovante emitido pelo sistema internacional SWIFT registra que a Entre Investimentos transferiu US$ 2 milhões para o Havengate em 13 de fevereiro de 2025.
No dia seguinte, Fabiano Zettel enviou o comprovante a Daniel Vorcaro acompanhado apenas da palavra “Filme!”. A mensagem associou diretamente a operação ao financiamento de Dark Horse.
O ICL Notícias revelou posteriormente que o contrato entre o Havengate e a Go Up Entertainment foi firmado em 24 de fevereiro, segundo a perícia apresentada pela defesa da produtora.
O laudo descreve a relação contratual com o fundo, mas não informa a existência de um acordo anterior que explique formalmente a vinculação da primeira remessa de US$ 2 milhões ao projeto.
A transferência da Entre para o Havengate e o contrato do fundo com a Go Up são operações juridicamente diferentes. Por isso, a data posterior do contrato não permite concluir, isoladamente, que a remessa foi irregular. Poderia existir uma proposta, um compromisso preliminar ou outro instrumento firmado antes do contrato definitivo.
Nenhum desses documentos, contudo, foi apresentado nas reportagens ou na parte conhecida da perícia privada.
Cronograma previa quase US$ 24 milhões
Uma planilha intitulada Funding Schedule detalha o cronograma de financiamento atribuído a Vorcaro. O documento previa 14 pagamentos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026, totalizando aproximadamente US$ 23,9 milhões.
As duas primeiras parcelas, de US$ 2 milhões cada, estavam inicialmente programadas para 20 e 25 de janeiro. Segundo a planilha, elas foram pagas com atraso: a primeira em 13 de fevereiro e a segunda em 24 de março.
As outras 12 parcelas foram fixadas em US$ 1,66 milhão cada. Uma delas foi paga também em 24 de março, outras duas foram registradas em 25 de abril e uma nova remessa ocorreu em 29 de maio.
Ao todo, os documentos registram seis operações que somaram pelo menos US$ 10,6 milhões, equivalentes a aproximadamente R$ 61 milhões considerando as cotações dos períodos em que as transferências foram realizadas.
O valor de quase US$ 24 milhões corresponde ao total negociado. Já os US$ 10,6 milhões representam o montante que aparece como efetivamente pago no cronograma obtido pelo Intercept.
Flávio cobrou a continuidade dos pagamentos
As mensagens reveladas mostram que Flávio acompanhou a situação financeira da produção e cobrou diretamente Vorcaro pela liberação das parcelas.
Em setembro de 2025, o senador enviou um áudio ao banqueiro demonstrando preocupação com o atraso nos pagamentos a profissionais envolvidos no filme, entre eles o ator Jim Caviezel, escalado para interpretar Jair Bolsonaro, e o diretor Cyrus Nowrasteh.
Flávio afirmou que a interrupção do fluxo poderia prejudicar contratos, elenco, direção e outros compromissos assumidos pela produção. Após a cobrança, Vorcaro pediu desculpas e prometeu tentar solucionar o problema.
O contato continuou nos meses seguintes. Em 15 de novembro de 2025, um dia antes da prisão de Vorcaro pela Polícia Federal, Flávio voltou a cobrar uma posição sobre os pagamentos.
Os registros reforçam que a atuação do senador não teria se limitado à divulgação ou ao apoio político ao filme. Ele aparece acompanhando a negociação, pressionando pela conclusão do processo jurídico e cobrando a continuidade dos aportes.
Não há, nos documentos divulgados, comprovação de que Flávio tenha recebido pessoalmente os valores transferidos ao Havengate.
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Fundo é administrado por advogado ligado a Eduardo Bolsonaro
O Havengate Development Fund LP foi registrado no Texas, nos Estados Unidos. Documentos societários apontam como agente legal o escritório de Paulo Calixto, advogado responsável por questões migratórias de Eduardo Bolsonaro no país.
A empresa responsável pela administração do fundo tem Paulo Calixto como administrador e o corretor de imóveis Altieris Santana como integrante de seu quadro societário.
O Havengate foi criado originalmente para captar investimentos destinados à construção de um empreendimento imobiliário no Texas. O projeto, avaliado em US$ 21,1 milhões, chegou a ser oferecido a estrangeiros com a possibilidade de obtenção de residência permanente nos Estados Unidos.
Uma investigação do Intercept apontou que o empreendimento não saiu do papel. Mesmo assim, o fundo continuou juridicamente ativo e posteriormente recebeu os valores vinculados ao financiamento de Dark Horse.
Registros do Texas identificam o Havengate como uma entidade ativa. O veículo informou, porém, não ter encontrado registros públicos de aquisição do terreno, execução da obra imobiliária ou apresentação de determinados documentos de oferta privada à autoridade norte-americana do mercado financeiro.
Paulo Calixto, Altieris Santana e a defesa de Vorcaro não responderam aos questionamentos encaminhados pelo Intercept para aquela reportagem.
Laudo aponta custo de US$ 13,39 milhões
A perícia privada contratada pela defesa da Go Up afirma que a produção teve custo total de US$ 13.393.081,29.
Os gastos no Brasil, realizados entre junho de 2025 e junho de 2026, foram calculados em R$ 20.927.664,75, equivalentes a aproximadamente US$ 3,72 milhões pela conversão adotada no laudo.
Nos Estados Unidos, as despesas foram estimadas em US$ 9.664.996,63. A soma dos gastos brasileiros e norte-americanos resultou no custo declarado de aproximadamente US$ 13,4 milhões.
O valor corresponde a cerca de 56% dos quase US$ 24 milhões previstos nas negociações entre Flávio e Vorcaro. A diferença não significa necessariamente que o restante tenha sido transferido, pois os registros conhecidos apontam pagamentos de pelo menos US$ 10,6 milhões.
Segundo a perícia, o Havengate realizou aportes que totalizaram aproximadamente US$ 13,3 milhões, valor próximo ao custo declarado da produção.
O laudo sustenta que os recursos examinados possuem origem privada e que não foram encontrados indícios de utilização de verbas da Prefeitura de São Paulo, emendas parlamentares, incentivos fiscais ou recursos da Lei Rouanet.
A conclusão está limitada aos documentos entregues pela própria defesa aos peritos. O relatório não identifica Daniel Vorcaro nominalmente como financiador e não apresenta publicamente a relação completa de notas fiscais, fornecedores, pagamentos de elenco, hospedagem, logística e demais despesas.
Perícia foi contratada pela defesa da produtora
O documento que informa a data do contrato não é um laudo produzido pela Polícia Civil ou pela Polícia Federal. Trata-se de uma perícia privada contratada pela defesa de Karina Ferreira da Gama, proprietária da Go Up Entertainment.
O relatório foi anexado ao inquérito da Polícia Civil de São Paulo que investiga a suspeita de que recursos públicos recebidos pelo Instituto Conhecer Brasil tenham sido desviados para a produção do filme.
Karina também preside o instituto, que firmou um contrato de aproximadamente R$ 108 milhões com a Prefeitura de São Paulo para a prestação de serviços de internet pública.
A defesa apresentou a perícia para demonstrar que os recursos empregados em Dark Horse teriam origem privada e rastreável. A Polícia Civil ainda realiza sua própria análise sobre os fatos investigados.
Polícia Federal apura o destino dos recursos
A Polícia Federal abriu outra frente de investigação envolvendo o financiamento do filme. Uma das linhas de apuração busca verificar se parte dos valores destinados ao Havengate foi utilizada para custear despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
Eduardo nega ter recebido recursos provenientes da negociação com Vorcaro.
Documentos divulgados anteriormente indicam que Eduardo possuía poderes de gestão e decisão sobre a produção ao lado da Go Up e do ex-deputado Mario Frias. Um contrato assinado digitalmente em janeiro de 2024 atribuía aos dois participação em decisões relacionadas ao projeto.
O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, também autorizou que a Polícia Federal tivesse acesso ao material apreendido pela Polícia Civil de São Paulo na investigação sobre a produtora.
A análise conjunta dos contratos, extratos, comprovantes bancários e registros apreendidos poderá esclarecer a origem e o destino integral dos recursos.
Flávio nega irregularidades
Flávio Bolsonaro afirma que o filme existe, que os profissionais envolvidos foram contratados e que toda a produção foi financiada com recursos privados.
O senador também nega ter recebido vantagens ou oferecido contrapartidas a Daniel Vorcaro. Em maio, declarou que havia solicitado à produtora e ao fundo uma prestação de contas pública sobre as despesas do projeto.
Flávio estabeleceu prazo de 30 dias para a divulgação. Posteriormente, sua campanha afirmou que a Go Up havia prestado contas no inquérito da Polícia Civil, embora os contratos, as notas fiscais e o detalhamento dos pagamentos não tenham sido disponibilizados integralmente ao público.
A campanha também sustenta que regras de confidencialidade impedem o Havengate de divulgar informações privadas sobre seus investidores.
O que os documentos permitem concluir
Os registros conhecidos estabelecem que a negociação conduzida com participação de Flávio Bolsonaro já estava em andamento antes da primeira transferência e que US$ 2 milhões chegaram ao Havengate 11 dias antes da assinatura do contrato de investimento com a Go Up.
A cronologia é compatível com a possibilidade de o dinheiro ter sido obtido primeiro e a relação formal com a produtora ter sido concluída posteriormente.
Ela não demonstra, por si só, que o contrato foi fraudulento, simulado ou produzido para ocultar a finalidade da remessa. Também não prova que Flávio recebeu os recursos ou tinha conhecimento de alguma eventual irregularidade financeira.
A definição sobre a regularidade das operações depende da localização de eventuais acordos anteriores, da análise das informações prestadas às instituições responsáveis pelas remessas, da identificação dos beneficiários e da comparação entre os aportes recebidos e as despesas efetivamente realizadas.
Esses documentos ainda não foram apresentados integralmente ao público e integram diferentes frentes de investigação conduzidas pelas autoridades.