Quase 100 dias depois, Flávio não divulga prestação de contas detalhada sobre valores do Vorcaro
Flávio Bolsonaro prometeu transparência sobre os recursos destinados ao filme “Dark Horse” após revelações envolvendo Daniel Vorcaro. Quase 100 dias depois, detalhes ainda não foram divulgados publica
Quase 100 dias após prometer uma prestação de contas detalhada sobre os recursos destinados ao filme “Dark Horse”, produção inspirada na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ainda não tornou públicos documentos que permitam verificar de maneira detalhada a origem e a aplicação dos valores relacionados ao projeto.
A promessa foi feita em 19 de maio de 2026, depois que vieram a público informações sobre negociações entre Flávio e o ex-controlador do Banco Master, Daniel Vorcaro, para financiar a produção cinematográfica.
Na ocasião, Flávio afirmou que havia solicitado ao fundo americano que recebeu os recursos e à produtora brasileira responsável pelo filme uma prestação de contas com o detalhamento das despesas. O prazo indicado pelo próprio senador era de 30 dias.
Nesta terça-feira, 25 de agosto, completam-se 98 dias desde a declaração. O prazo de 30 dias estabelecido por Flávio terminou ainda em junho.
Questionado novamente sobre o assunto nesta segunda-feira (24), após participar de uma reunião na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Flávio reagiu às cobranças e afirmou que não seria sua responsabilidade apresentar as contas.
“Quem tem que prestar contas não sou eu”, declarou o candidato, segundo a CNN Brasil.
Flávio também afirmou que a prestação de contas já teria sido apresentada no âmbito de uma investigação em São Paulo e que informações sobre o assunto foram divulgadas pela imprensa.
Dias antes, em outra agenda de campanha, ele já havia classificado a controvérsia envolvendo o filme como “página virada” e sustentado que a prestação de contas havia sido realizada. Na ocasião, porém, não apresentou publicamente o detalhamento dos valores recebidos, das despesas da produção ou do destino específico dos recursos.
A posição atual contrasta com declarações dadas em maio, quando Flávio afirmou estar disposto a dar transparência às informações relacionadas ao financiamento e disse ter solicitado formalmente o detalhamento das despesas.
Negociação previa cerca de R$ 134 milhões
O caso ganhou repercussão após reportagens revelarem que Flávio Bolsonaro havia solicitado recursos a Daniel Vorcaro para financiar “Dark Horse”.
Segundo documentos e informações divulgados pela imprensa, a negociação envolvia aproximadamente US$ 24 milhões, equivalentes a cerca de R$ 134 milhões na cotação daquele período.
Desse total, cerca de US$ 10,6 milhões — aproximadamente R$ 61 milhões — teriam sido efetivamente destinados ao projeto.
Flávio confirmou que pediu recursos a Vorcaro, mas negou ter recebido o dinheiro pessoalmente ou oferecido qualquer tipo de vantagem em troca do financiamento.
Os recursos teriam passado pela Entre Investimentos e Participações, empresa relacionada a Vorcaro, antes de chegar a uma estrutura financeira nos Estados Unidos ligada ao financiamento da produção.
Perícia contratada pela produtora apontou custo de R$ 75 milhões
Em junho, a defesa da Go Up Entertainment, produtora responsável por “Dark Horse”, apresentou uma perícia privada segundo a qual o filme teria custado aproximadamente US$ 13,4 milhões, cerca de R$ 75 milhões.
O trabalho foi contratado pela própria defesa da empresa e afirmou não ter identificado, nos documentos analisados, utilização de recursos públicos, incentivos fiscais, Lei Rouanet ou dinheiro proveniente da Prefeitura de São Paulo na produção.
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A conclusão, entretanto, ficou restrita ao material disponibilizado aos peritos para análise.
O documento também não identificou nominalmente Daniel Vorcaro nem detalhou quem eram todos os financiadores responsáveis pelos aportes que chegaram à estrutura utilizada para custear o filme.
Por isso, apesar da existência da perícia, permanece uma diferença entre esse documento e a prestação de contas pública e detalhada prometida por Flávio em maio.
Produtora inicialmente negou recursos de Vorcaro
Antes que novos documentos sobre o caminho do dinheiro fossem revelados, a responsável pela Go Up Entertainment, Karina Ferreira da Gama, havia negado que a empresa tivesse recebido recursos provenientes de Daniel Vorcaro.
Em maio, Karina afirmou à Folha de S.Paulo que os investimentos da produtora eram estrangeiros e não possuíam ligação com o então controlador do Banco Master.
Posteriormente, documentos divulgados pela imprensa apontaram transferências relacionadas ao projeto e detalharam parte do percurso dos aproximadamente R$ 61 milhões atribuídos ao financiamento ligado a Vorcaro.
Caso também está sob investigação
O financiamento de “Dark Horse” passou a ser objeto de diferentes frentes de apuração.
Nesta semana, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a Polícia Federal a acessar provas reunidas pela Polícia Civil de São Paulo durante uma investigação envolvendo a Go Up Entertainment e empresas relacionadas à produtora.
A apuração paulista investiga suspeitas de irregularidades relacionadas a um contrato firmado com a Prefeitura de São Paulo. Já a Polícia Federal apura, em outra frente, eventual utilização irregular de emendas parlamentares ligadas ao projeto.
Há ainda investigação relacionada especificamente aos aportes provenientes de estruturas vinculadas a Daniel Vorcaro e às negociações mantidas com Flávio Bolsonaro. As diferentes apurações possuem objetos próprios e a existência das investigações, por si só, não significa comprovação de irregularidades.
No Tribunal de Contas da União (TCU), uma representação também pediu apuração sobre a captação de recursos para o filme. O processo ficou sob relatoria do ministro Benjamin Zymler.
Promessa de transparência continua no centro das cobranças
A discussão, portanto, deixou de ser apenas sobre a existência de algum documento contábil.
O ponto central passou a ser se o material divulgado corresponde à transparência prometida por Flávio Bolsonaro em maio, quando o senador afirmou que seria apresentado um detalhamento das despesas relacionadas ao filme.
Até agora, foram divulgadas informações sobre o custo total estimado da produção e uma perícia privada contratada pela defesa da produtora. Entretanto, não se tornou público um conjunto completo de documentos, como contratos, identificação detalhada dos financiadores, notas fiscais, recibos e a destinação individualizada dos recursos, que permita ao público conferir integralmente o caminho dos valores.
Nesta segunda-feira, ao ser novamente questionado, Flávio insistiu que a prestação já teria sido feita e reagiu dizendo aos jornalistas: “Vocês estão parados no tempo?”
Assim, 98 dias depois da promessa feita em 19 de maio e mais de dois meses após o encerramento do prazo de 30 dias anunciado pelo próprio senador, o debate continua: Flávio afirma que as contas já foram apresentadas, enquanto permanece sem divulgação pública o detalhamento documental que havia sido prometido quando o caso veio à tona.