Flávio Bolsonaro presidente? O que o Brasil realmente ganharia com isso?

Entre investigações, negócios milionários, defesa do pai e propostas econômicas que levantam preocupações sobre os serviços públicos, a candidatura de Flávio Bolsonaro exige uma discussão ampla.

Flávio Bolsonaro presidente? O que o Brasil realmente ganharia com isso?
Flávio e Lula disputam 2º turno para presidente da República
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Você pretende votar em Flávio Bolsonaro para tirar Lula da Presidência? Então existe uma pergunta que precisa ser respondida antes: o que exatamente o Brasil ganhará com essa escolha?
Essa é uma questão que vai muito além da preferência partidária. Estamos falando do futuro de mais de 200 milhões de brasileiros, da preservação da democracia, da proteção dos direitos sociais, do combate à corrupção, do desenvolvimento econômico e das prioridades de quem pretende governar o país.
A eleição presidencial de 2026 chegou ao segundo turno com uma disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, marcada para 25 de outubro. O resultado do primeiro turno confirmou que o bolsonarismo continua representando uma força política expressiva no Brasil.
Mas a força eleitoral de um candidato não pode servir de substituta para o exame de seu histórico, de suas propostas e de suas contradições.
Flávio Bolsonaro não é um desconhecido que apareceu agora na política. Foi deputado estadual no Rio de Janeiro, tornou-se senador da República e construiu sua carreira dentro de um projeto político profundamente associado à figura de seu pai, Jair Bolsonaro.
Por isso, sua candidatura deve ser analisada considerando não apenas o que ele promete fazer, mas também o que representou durante sua trajetória política.
É preciso discutir suas posições sobre armas, direitos das mulheres, meio ambiente, ciência, cultura, democracia e economia.
É preciso examinar seu envolvimento em controvérsias que marcaram a política brasileira.
E, principalmente, é necessário responder a uma pergunta que deveria ser obrigatória em qualquer eleição:
Quais foram as contribuições concretas de Flávio Bolsonaro para melhorar a vida da população brasileira?
O fato de alguém pertencer a uma família politicamente conhecida não é credencial suficiente para governar um país. Da mesma forma, ser adversário do Partido dos Trabalhadores não constitui, por si só, um projeto de desenvolvimento nacional.
O Brasil precisa de respostas.

A rejeição ao PT não pode substituir um projeto para o Brasil

Uma parcela do eleitorado brasileiro construiu sua identidade política em torno da rejeição ao PT e, particularmente, ao presidente Lula.
Essa rejeição pode decorrer de convicções ideológicas, divergências econômicas, críticas a administrações anteriores, conservadorismo ou descontentamento com os rumos do país.
Em uma democracia, essas posições são legítimas.
O problema começa quando a rejeição a um partido se torna tão intensa que qualquer alternativa passa a ser aceita, independentemente de suas propostas, de sua capacidade administrativa ou dos questionamentos sobre sua conduta pública.
É nesse ponto que a disputa política deixa de ser uma avaliação racional de projetos e se transforma em uma guerra de identidades.
Não basta dizer que é preciso retirar o PT do poder.
É necessário explicar quem assumirá a responsabilidade de governar, quais serão as prioridades, de onde virão os recursos e quem pagará a conta das decisões econômicas.
A pergunta não deveria ser apenas quem será derrotado.
Deveria ser quem terá condições de melhorar a vida dos brasileiros.

Armas, violência e a ideia de segurança pública

Uma das características mais marcantes do bolsonarismo é a defesa da ampliação do acesso às armas de fogo.
Durante o governo Jair Bolsonaro, a política de flexibilização das regras para aquisição e posse de armamentos tornou-se uma das principais bandeiras de sua administração.
A mensagem política era simples: uma população mais armada seria uma população mais segura.
Entretanto, segurança pública é um problema muito mais complexo.
Envolve investigação policial, inteligência, combate às organizações criminosas, controle das fronteiras, prevenção da violência, educação, oportunidades de trabalho e fortalecimento das instituições responsáveis pela aplicação da lei.
A candidatura de Flávio Bolsonaro mantém uma orientação de endurecimento penal. Seu programa inclui medidas como redução da maioridade penal, ampliação da infraestrutura prisional e classificação de determinadas organizações criminosas como narcoterroristas.
Essas propostas precisam ser examinadas quanto à eficácia, ao custo e às consequências jurídicas.
Não existe solução simples para uma questão tão grave.
É legítimo desejar punições rigorosas para criminosos. Mas uma política nacional de segurança precisa ser avaliada por resultados comprováveis, não apenas pela intensidade de seus discursos.
Um presidente não pode transformar a violência em instrumento permanente de mobilização política.
O Brasil precisa de segurança com inteligência, capacidade de investigação e respeito à Constituição.

Direitos das mulheres e valores democráticos

O bolsonarismo também acumulou controvérsias envolvendo declarações e atitudes de Jair Bolsonaro em relação às mulheres.
O histórico do ex-presidente inclui manifestações públicas amplamente criticadas por seu conteúdo discriminatório e ofensivo.
O candidato precisa demonstrar, de maneira clara, como pretende se diferenciar desse legado, embora o comportamento dele demonstra que ele pensa e age igual o pai.
A igualdade entre mulheres e homens não pode ser tratada como concessão ideológica. É um princípio constitucional.
Violência doméstica, desigualdade salarial, feminicídio, assédio e discriminação continuam sendo problemas concretos da sociedade brasileira.
Um candidato à Presidência precisa apresentar compromissos verificáveis para enfrentá-los.
A defesa da família, frequentemente utilizada pelo bolsonarismo como bandeira eleitoral, somente terá consistência se incluir a proteção dos direitos e da integridade das mulheres que fazem parte dessas famílias.
Família não pode ser apenas uma palavra de campanha.

Negacionismo climático, ciência e vacinação

O Brasil enfrenta desafios ambientais que não podem ser ignorados.
Secas prolongadas, enchentes, ondas de calor, incêndios florestais e perdas na produção agropecuária estão entre as consequências que tornam a emergência climática uma questão econômica, sanitária e social.
O conhecimento científico demonstra que as atividades humanas, especialmente a emissão de gases de efeito estufa, são as principais responsáveis pelo aquecimento global observado nas últimas décadas.
Negar essa realidade não elimina seus efeitos.
Durante o governo Jair Bolsonaro, a política ambiental brasileira foi alvo de críticas nacionais e internacionais, assim como a postura do então presidente em relação à vacinação durante a pandemia de Covid-19.
Essa herança política torna indispensável cobrar de Flávio Bolsonaro compromissos concretos com o conhecimento científico.
Essas propostas devem ser reconhecidas como parte do programa apresentado, e precisam ser acompanhadas de explicações sobre sua execução.
Um país que pretende competir no cenário internacional não pode tratar universidades, pesquisadores, cientistas e profissionais de saúde como adversários políticos.
Ciência não é questão de torcida.
É fundamento para o desenvolvimento, a inovação e a proteção da vida.

A fome no Brasil: uma realidade que os números não deixam esconder

Uma das comparações mais importantes entre os governos do PT e o governo Jair Bolsonaro envolve a segurança alimentar.
O Brasil saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, a FAO, em 2014, após um longo período de fortalecimento das políticas públicas de combate à pobreza e à insegurança alimentar.
Em 2022, durante o governo de Jair Bolsonaro levantamentos da Rede PENSSAN apontaram aproximadamente 33 milhões de brasileiros vivendo em situação de fome, em um contexto marcado pelos efeitos da pandemia, dificuldades econômicas e fragilidade da proteção social.
A responsabilidade por esse cenário precisa considerar múltiplos fatores. Mas também é necessário avaliar as escolhas dos governos, porque políticas públicas podem agravar ou aliviar a vulnerabilidade da população.
Com a retomada de iniciativas de combate à pobreza, fortalecimento da renda e segurança alimentar, o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome em 2025.
E não ficou apenas naquele resultado.
O relatório da FAO divulgado em julho de 2026 confirmou que o país permaneceu fora do Mapa da Fome, com a proporção de pessoas em situação de subalimentação abaixo do limite internacional de 2,5%.
Esse resultado é relevante.
Não significa que a fome tenha desaparecido completamente, nem que todos os problemas sociais estejam resolvidos.
Significa que houve uma melhoria mensurável em um dos indicadores mais importantes de dignidade humana.
Ignorar avanços documentados por organismos internacionais não é uma avaliação séria da realidade brasileira.
O combate à fome não deveria ser motivo de disputa partidária.
Deveria ser compromisso permanente de qualquer presidente da República.

Rachadinha: as perguntas que ficaram sem resposta

Flávio Bolsonaro também carrega em sua trajetória política uma das investigações mais conhecidas envolvendo a família Bolsonaro: o caso das chamadas rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, a Alerj.
O Ministério Público do Rio de Janeiro investigou suspeitas de desvio de parte dos salários de funcionários do antigo gabinete do então deputado estadual.
O caso envolveu o ex-assessor Fabrício Queiroz e levantou suspeitas sobre movimentações financeiras realizadas durante o período em que Flávio exercia o mandato parlamentar.
O senador foi denunciado.
Em maio de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro rejeitou a denúncia depois que provas utilizadas pelo Ministério Público foram anuladas pelo Superior Tribunal de Justiça e pelo Supremo Tribunal Federal.
É fundamental esclarecer essa distinção: a anulação de provas e a rejeição de uma denúncia não equivalem a uma sentença condenatória, mas também não representam necessariamente uma declaração judicial de que todos os fatos investigados jamais ocorreram.
A questão política, entretanto, permanece relevante.
Um candidato que pretende ocupar a Presidência da República precisa estar preparado para responder aos questionamentos públicos sobre sua trajetória.
Especialmente quando seu grupo político construiu grande parte de sua identidade em torno do combate à corrupção.
Não se pode exigir transparência rigorosa dos adversários e tratar as suspeitas envolvendo aliados e familiares como perseguição política.
O compromisso com a integridade pública precisa ser o mesmo para todos.

A mansão de quase R$ 6 milhões e o financiamento do BRB

Outro episódio que merece ser lembrado envolve a aquisição de uma mansão em Brasília, em 2021.
Flávio Bolsonaro e sua esposa adquiriram um imóvel avaliado em aproximadamente R$ 5,97 milhões, com financiamento de R$ 3,1 milhões concedido pelo Banco de Brasília, o BRB.
A operação chamou a atenção pelas condições de financiamento.
De acordo com levantamento publicado pelo UOL, o contrato apresentava taxa efetiva de juros de aproximadamente 3,71% ao ano, condição considerada bastante competitiva em comparação com as ofertas de mercado analisadas na época.
Quando envolve um agente político com atuação nacional, é legítimo que a sociedade queira conhecer a origem dos recursos, as condições do empréstimo e a compatibilidade entre patrimônio e renda declarada.
Transparência patrimonial não deveria incomodar quem se apresenta como defensor da moralidade.
Pelo contrário.
Deveria ser um compromisso natural de qualquer pessoa que pretende administrar os recursos públicos de um país.

Os 51 imóveis adquiridos com dinheiro em espécie pela família Bolsonaro

Em agosto de 2022, uma investigação jornalística publicada pelo UOL revelou informações que provocaram forte repercussão nacional.
Segundo o levantamento realizado pelos jornalistas Thiago Herdy e Juliana Dal Piva, integrantes da família Bolsonaro negociaram 107 imóveis ao longo de aproximadamente três décadas.
Desse total, pelo menos 51 propriedades teriam sido adquiridas, integral ou parcialmente, com utilização de dinheiro em espécie.
A investigação envolveu familiares de diferentes núcleos, incluindo filhos, irmãos e outros parentes de Jair Bolsonaro. Portanto, não se tratava de 51 imóveis comprados exclusivamente por Flávio Bolsonaro.
Os valores associados às aquisições em espécie alcançavam R$ 13,5 milhões, conforme os registros examinados pela reportagem.
Movimentações dessa natureza, especialmente quando envolvem valores elevados e agentes públicos, justificam perguntas sobre a origem e a rastreabilidade dos recursos.
A família Bolsonaro contestou o levantamento e negou irregularidades.
Ainda assim, a documentação divulgada trouxe ao debate público uma contradição política difícil de ignorar.
O grupo que se apresentou ao eleitorado como símbolo de uma nova moralidade administrativa passou a enfrentar questionamentos sobre operações patrimoniais de grande valor.
O problema não é uma família possuir bens.
O problema é transformar a honestidade em instrumento de propaganda eleitoral, exigindo explicações dos adversários e rejeitando questionamentos sobre o próprio patrimônio.
A ética não pode mudar de acordo com o sobrenome do investigado.

Milícias no Rio de Janeiro: as relações políticas que precisam ser esclarecidas

A relação entre política e milícias é um dos assuntos mais graves da história recente do Rio de Janeiro.
Organizações milicianas construíram estruturas de poder em comunidades, explorando atividades econômicas, controlando territórios, ameaçando moradores e estabelecendo diferentes formas de influência sobre agentes públicos.
O histórico político de Flávio Bolsonaro também foi marcado por controvérsias envolvendo pessoas relacionadas a esse universo.
Entre os casos mais conhecidos estão as relações de seu antigo gabinete com familiares do ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, apontado pelas autoridades como integrante de organização miliciana.
Esses vínculos foram amplamente discutidos na imprensa e passaram a integrar questionamentos sobre as relações políticas do bolsonarismo no estado.
A pergunta legítima é por que integrantes do entorno de figuras associadas às milícias encontraram espaço em estruturas políticas da família Bolsonaro?
Um candidato que promete combater o crime organizado precisa oferecer transparência sobre essas relações.
A segurança pública exige coerência.
Não basta prometer rigor contra criminosos nas comunidades e deixar sem respostas perguntas sobre as relações entre poder político e organizações criminosas.

Banco Master: por que Flávio Bolsonaro procurou Daniel Vorcaro?

Entre as controvérsias mais recentes envolvendo Flávio Bolsonaro está sua relação com Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
O escândalo financeiro que atingiu a instituição provocou investigações sobre operações bancárias e movimentações financeiras suspeitas, além de revelar conexões do banqueiro com diferentes setores da política nacional.
Uma dessas conexões envolve diretamente o senador Flávio Bolsonaro.
Em maio de 2026, o próprio parlamentar confirmou que havia procurado Vorcaro para buscar recursos destinados à produção de um filme sobre a trajetória de Jair Bolsonaro.
As informações divulgadas pela imprensa apontaram negociações envolvendo um projeto de financiamento de R$ 134 milhões e relatos de repasses de aproximadamente R$ 61 milhões relacionados à produção.
Flávio reconheceu a busca de patrocínio e os contatos com o banqueiro.
Posteriormente, o senador também confirmou ter se encontrado com Vorcaro depois da primeira prisão do banqueiro, afirmando que o objetivo seria encerrar sua participação no projeto cinematográfico. No que foi desmentido por Valdemar Costa Neto, presidente do seu partido, o PL.
Estamos falando de um parlamentar influente, integrante de uma família com grande poder político, buscando financiamento milionário de um banqueiro que posteriormente se tornou personagem central de um dos maiores escândalos financeiros do país.
Quais eram as contrapartidas previstas?
Qual foi exatamente a participação de Flávio Bolsonaro na negociação?
Qual a origem dos recursos efetivamente transferidos?
E quais beneficiários receberam esses pagamentos?
Essas perguntas precisam ser respondidas com documentos, contratos, registros financeiros e informações verificáveis.
Mas é perfeitamente legítimo exigir investigação rigorosa sobre a origem dos recursos e o destino dos pagamentos.
Afinal, se a busca de dinheiro milionário junto a um banqueiro investigado envolvesse um filho do presidente Lula, é razoável imaginar que a oposição exigiria esclarecimentos completos.
Por que o critério seria diferente quando o personagem é um Bolsonaro?
Corrupção não pode ser combatida pela metade.
E a investigação das relações de Vorcaro deve alcançar qualquer autoridade ou integrante de qualquer partido sobre o qual existam indícios consistentes de irregularidade.

A tentativa de golpe e o compromisso de Flávio Bolsonaro com o legado do pai

A democracia brasileira enfrentou uma de suas crises mais graves após a eleição presidencial de 2022.
A derrota de Jair Bolsonaro foi seguida por mobilizações que contestavam o resultado eleitoral e culminaram nos ataques de 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas e depredadas em Brasília.
A tentativa de ruptura institucional provocou investigações, processos judiciais e responsabilizações criminais.
Jair Bolsonaro acabou condenado por sua participação na trama golpista.
Flávio Bolsonaro permaneceu politicamente ao lado do pai e se destacou como um de seus principais defensores públicos.
É preciso observar que, em pronunciamento no Senado em 10 de janeiro de 2023, Flávio rejeitou a tentativa de associar Jair Bolsonaro aos ataques e atos de vandalismo ocorridos dois dias antes.
Flávio Bolsonaro é candidato à Presidência da República representando um movimento político cujo principal líder foi condenado por envolvimento em uma tentativa de golpe de Estado.
Isso exige respostas claras.
Como o candidato avalia a conduta do pai?
Compromete-se a respeitar a independência do Supremo Tribunal Federal, do Congresso Nacional e das demais instituições?
O plano de governo apresentado por Flávio propõe alterações no funcionamento do Judiciário e limitações a determinadas decisões do Supremo.

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Em outubro de 2026, o candidato também declarou que pretende promover mudanças constitucionais, afirmando que elas seriam conduzidas pelos procedimentos legislativos previstos na Constituição.
Propor reformas institucionais é um direito democrático.
Mas qualquer projeto de mudança precisa respeitar a separação dos Poderes e os limites constitucionais.
Democracia não pode ser uma regra aceita apenas quando o resultado eleitoral favorece determinado grupo político.
Quem pretende governar o Brasil precisa demonstrar compromisso inequívoco com a Constituição.

O projeto econômico de Flávio Bolsonaro: quem pagará pelos cortes?

É na economia que aparecem algumas das questões mais importantes sobre um eventual governo Flávio Bolsonaro.
Seu programa apresentado à Justiça Eleitoral prevê redução da estrutura administrativa, reformas fiscais, mudanças tributárias e retomada de privatizações.
O candidato também estabelece como objetivo o crescimento econômico impulsionado pelo investimento privado e por projetos de infraestrutura.
Defender eficiência administrativa e combater desperdícios são objetivos legítimos.
Mas é preciso saber o que os candidatos entendem por desperdício.
Porque há uma diferença enorme entre combater privilégios e reduzir recursos destinados à população.
Em 7 de outubro de 2026, uma reportagem da Folha de S.Paulo revelou que integrantes da equipe econômica de Flávio estudavam medidas para reduzir aproximadamente R$ 250 bilhões em despesas obrigatórias.
Entre as possibilidades examinadas estariam alterações na forma de reajuste de benefícios previdenciários, mudanças relativas ao Benefício de Prestação Continuada e o fim da vinculação constitucional de parte dos gastos com saúde e educação à arrecadação federal.
Essa divergência precisa ser esclarecida antes da eleição.
Se existe uma proposta de cortar centenas de bilhões de reais, é necessário identificar quais despesas seriam efetivamente reduzidas.
Onde estão os gastos considerados excessivos?
Quais programas seriam preservados?
Quais investimentos poderiam perder recursos?
O compromisso com o equilíbrio fiscal não pode servir como explicação genérica para medidas cujas consequências ainda não foram suficientemente apresentadas ao eleitorado.

Saúde e educação não podem ser tratadas como despesas secundárias

O financiamento da saúde e da educação representa um dos fundamentos do sistema brasileiro de proteção social.
O Sistema Único de Saúde atende milhões de pessoas e garante desde vacinação e consultas básicas até tratamentos complexos, cirurgias e transplantes.
A educação pública, por sua vez, depende de recursos para manter escolas, universidades, institutos federais, laboratórios, alimentação escolar e formação de professores.
Alterações nas regras de financiamento dessas áreas precisam ser acompanhadas de estudos transparentes sobre seus efeitos.
Não basta dizer que haverá uma gestão mais eficiente.
É preciso demonstrar como a eficiência será alcançada e quais serviços serão preservados.
Como conciliar promessas de melhoria dos serviços públicos com um ajuste fiscal de grande magnitude, sem explicar claramente quais gastos serão reduzidos?
Uma eleição presidencial exige mais do que boas intenções.
Exige contas que fechem.

Privatizações: o interesse público precisa vir primeiro

Outro ponto relevante é a posição da candidatura sobre as empresas estatais.
O programa apresentado por Flávio Bolsonaro prevê retomada de privatizações, o que representa uma orientação econômica favorável à ampliação da participação privada em determinados setores.
A privatização de uma empresa pública não deve ser considerada automaticamente boa ou ruim.
O debate precisa examinar sua função estratégica, os impactos sobre consumidores, trabalhadores, investimento, concorrência e desenvolvimento regional.
O Brasil possui grandes desigualdades territoriais e sociais.
Em determinadas regiões, a presença de instituições públicas é fundamental para garantir acesso a serviços financeiros, crédito habitacional, financiamento agrícola e políticas de desenvolvimento.
Por isso, a sociedade precisa conhecer exatamente quais empresas seriam privatizadas e quais consequências essas decisões poderiam produzir.
Privatizar não pode ser um objetivo em si mesmo.

Economia: os números precisam valer mais do que a propaganda

A discussão econômica também exige abandonar a lógica segundo a qual tudo o que ocorre durante um governo adversário deve ser considerado negativo.
O Brasil enfrentou períodos de inflação elevada, desemprego, retração econômica, dificuldades fiscais e empobrecimento da população.
Também registrou avanços importantes em diferentes momentos.
Ao avaliar os governos Lula e Bolsonaro, o eleitor precisa considerar indicadores como geração de empregos, renda dos trabalhadores, inflação, crescimento econômico, produção industrial, investimentos e endividamento das famílias.
A recuperação da renda, o fortalecimento de políticas sociais e a valorização do salário mínimo constituem elementos relevantes para avaliar os resultados da administração federal.
O Brasil não ganha nada com a manipulação de indicadores econômicos.
O eleitor precisa comparar resultados concretos e propostas viáveis.
Um país não se desenvolve apenas porque um presidente faz discursos agressivos, anuncia medidas espetaculares ou se apresenta como inimigo de determinado grupo político.
Desenvolvimento exige planejamento, investimento, estabilidade institucional, qualificação profissional, segurança jurídica e capacidade de execução.
Os dados precisam prevalecer sobre as paixões eleitorais.

Cultura e arte não são inimigas do Brasil

Outro tema importante é o tratamento dispensado à cultura e às manifestações artísticas.
Durante o governo Jair Bolsonaro, artistas, produtores culturais e instituições públicas ligadas ao setor enfrentaram conflitos políticos frequentes.
A cultura passou a ser apresentada por setores do bolsonarismo como um território ideológico adversário.
Essa visão desconsidera a importância econômica, histórica e social da produção cultural brasileira.
Cinema, música, teatro, literatura, artes visuais, patrimônio histórico e manifestações populares não constituem privilégios.
São atividades que geram empregos, movimentam a economia, preservam a memória nacional e fortalecem a identidade do país.
O Brasil possui uma diversidade cultural extraordinária, construída por povos indígenas, comunidades afro-brasileiras, trabalhadores, artistas populares e diferentes grupos sociais.
Nenhum governo deveria transformar essa riqueza em inimiga política.
O investimento público em cultura pode e deve ser fiscalizado.
Mas fiscalizar não significa perseguir.
E discordar das opiniões políticas de artistas não autoriza governos a desprezar a produção cultural de um país.
Flávio Bolsonaro precisa demonstrar como pretende lidar com a liberdade artística, a produção cultural independente e o financiamento público do setor.
A cultura pertence ao povo brasileiro, não a um partido.

O que Flávio Bolsonaro efetivamente fez pelo povo brasileiro?

Essa talvez seja a pergunta mais importante de toda a discussão.
Flávio Bolsonaro iniciou sua trajetória parlamentar na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e, posteriormente, chegou ao Senado Federal.
Mas exercer mandatos não é suficiente para demonstrar capacidade de governar um país.
A população tem o direito de perguntar quais políticas públicas propostas por Flávio Bolsonaro produziram melhorias concretas e mensuráveis na vida das pessoas.
Quais foram suas principais leis aprovadas?
Quantos brasileiros foram beneficiados diretamente por iniciativas de sua autoria?
Que contribuição ofereceu para reduzir a pobreza?
Quais foram os resultados de sua atuação na melhoria da saúde pública?
Que iniciativas estruturantes apresentou para fortalecer a educação?
Quais propostas suas ajudaram a ampliar emprego, renda, produtividade ou desenvolvimento regional?
Essas perguntas merecem respostas fundamentadas em resultados legislativos e indicadores verificáveis.
Um candidato à Presidência precisa apresentar seu histórico de realizações, inclusive para além das propostas de campanha.
Não basta ser filho de um ex-presidente.
Não basta carregar um sobrenome conhecido.
Não basta ter milhões de seguidores nas redes sociais.
Não basta representar o sentimento de oposição ao PT.
O Brasil precisa saber quais são as competências, as experiências e as realizações que justificam entregar a esse candidato a responsabilidade de governar o país.

Lula pode ser criticado. Mas os fatos também precisam ser reconhecidos

O presidente Lula tem uma longa trajetória política e administrativa.
Seus governos foram marcados por avanços sociais, expansão de programas de transferência de renda, investimentos em educação, políticas de valorização salarial e fortalecimento de iniciativas de combate à fome.
O combate à corrupção exige fiscalização independente, fortalecimento dos órgãos de controle, transparência nas contratações públicas e responsabilização individual de quem cometer irregularidades.
Esse princípio vale para Lula, Flávio Bolsonaro, parlamentares do PT, do PL e de qualquer outro partido.
É necessário, porém, rejeitar simplificações.
O mesmo rigor que se exige de um adversário deve ser aplicado aos aliados.
Essa deveria ser uma regra básica da política.
O Brasil não precisa de eleitores dispostos a defender qualquer comportamento de seu candidato preferido.
Precisa de cidadãos que tenham coragem de fiscalizar inclusive aqueles em quem depositam confiança.

O perigo de transformar a política em uma guerra permanente

Um dos efeitos mais prejudiciais da polarização brasileira é a transformação de divergências políticas em rivalidades pessoais.
Familiares deixam de conversar.
Amigos rompem relações.
Debates públicos se tornam disputas de insultos.
E problemas concretos desaparecem por trás de confrontos ideológicos.
Essa dinâmica beneficia lideranças que dependem da mobilização emocional permanente de seus seguidores.
Quando a política se resume a derrotar um inimigo, propostas, resultados e compromissos deixam de ocupar o centro da discussão.
O eleitor passa a defender o candidato como se estivesse defendendo a própria identidade.
É justamente nesse ambiente que contradições podem ser ignoradas.
Quem condena a corrupção de um adversário passa a relativizar denúncias envolvendo o próprio grupo.
Quem exige rigor contra criminosos rejeita investigações sobre aliados.
Quem afirma defender a democracia aceita ataques às instituições quando elas contrariam suas preferências.
Quem reclama dos gastos públicos deixa de perguntar sobre privilégios e relações financeiras de integrantes do grupo que apoia.
Isso não significa que todos os eleitores de determinado candidato compartilhem dessas atitudes.
Mas significa que a sociedade precisa reconhecer o perigo dos critérios seletivos.
Uma democracia saudável depende de cidadãos capazes de questionar seus próprios representantes.
A lealdade ao país deve ser maior do que a lealdade a qualquer político.

O voto é livre. A responsabilidade pela escolha também existe.

O Brasil chega ao segundo turno de 2026 diante de uma decisão que terá consequências para os próximos quatro anos.
A eleição não deve ser tratada como um plebiscito sobre o sobrenome Bolsonaro nem como uma simples disputa de sentimentos favoráveis ou contrários ao PT.
Os dois candidatos precisam ser avaliados por suas trajetórias, propostas e capacidades de execução.
No caso de Flávio Bolsonaro, há questões especialmente relevantes sobre sua proximidade com o legado político do pai, as controvérsias financeiras que marcaram sua trajetória e os efeitos de um eventual programa de ajuste fiscal sobre direitos sociais.
Também é necessário examinar seu compromisso com as instituições democráticas, o combate às desigualdades, a ciência, a cultura e a proteção ambiental.
Mas o eleitor que escolhe um candidato também assume a responsabilidade cívica de examinar os fatos, conhecer suas propostas e cobrar explicações sobre os questionamentos que envolvem sua vida pública.
A democracia não exige unanimidade.
Exige consciência.
O que não pode acontecer é o cidadão abrir mão de sua capacidade crítica porque decidiu pertencer a determinado campo político.
A Presidência da República não é um troféu para satisfazer rivalidades.
É uma responsabilidade gigantesca sobre o destino do país.
O presidente eleito terá influência direta sobre políticas de saúde, educação, economia, segurança, relações internacionais, infraestrutura e proteção social.
Suas decisões poderão melhorar ou piorar a vida de milhões de pessoas.
É por isso que o debate precisa ser mais profundo do que a propaganda eleitoral.

Uma reflexão final aos eleitores de Flávio Bolsonaro

Se você pretende votar em Flávio Bolsonaro no próximo dia 25 de outubro, vale a pena examinar com atenção os fatos apresentados neste artigo.
Avalie as investigações e os esclarecimentos oferecidos pelo candidato.
Examine seu histórico parlamentar.
Compare suas promessas com as posições já defendidas por ele.
Considere os efeitos das possíveis mudanças no financiamento da saúde e da educação.
Observe sua postura diante das instituições democráticas e dos acontecimentos que marcaram a história recente do Brasil.
Faça também uma avaliação criteriosa do governo Lula, reconhecendo seus resultados e suas limitações.
A decisão eleitoral deve levar em conta o conjunto de consequências para a sociedade, e não apenas a satisfação imediata de derrotar um adversário político.
O Brasil não pertence ao PT nem à Família Bolsonaro.
Não pertence à esquerda nem à direita.
Pertence aos brasileiros.
A democracia continuará exigindo fiscalização, participação popular e cobrança de resultados, independentemente de quem vença a eleição.
O importante é escolher representantes que aceitem ser fiscalizados, respeitem a Constituição e apresentem soluções concretas para os problemas nacionais.
Antes de decidir seu voto, faça uma última reflexão: você está escolhendo um projeto de país ou apenas votando contra alguém?
E, acima de qualquer preferência partidária, responda à pergunta que realmente importa: o que é melhor para o Brasil e para os brasileiros?
Dinho Guimarães Analista político independente
Vamos em frente!