O STF não estava nas urnas, mas o desgaste dele estava
A crise de imagem do Supremo Tribunal Federal acabou sendo usada politicamente para atingir Lula, como se o presidente fosse responsável pelas decisões dos ministros.
O Supremo Tribunal Federal não era candidato a presidente da República. Nenhum ministro do STF estava disputando voto nas urnas. Mesmo assim, seria um erro ignorar que o desgaste da Corte acabou entrando na eleição e atingindo, de alguma maneira, a campanha do presidente Lula.
Esse é um dos pontos que precisam ser discutidos com seriedade agora, depois do primeiro turno.
A crise envolvendo o STF, principalmente depois das revelações e suspeitas relacionadas ao caso Banco Master, colocou ministros da Suprema Corte no centro do debate político. As denúncias, as relações que passaram a ser questionadas e até os conflitos internos entre integrantes do próprio tribunal criaram um ambiente extremamente ruim para a imagem da instituição.
O problema é que tentou fazer uma associação conveniente: transformar qualquer suspeita envolvendo ministros do Supremo em responsabilidade política de Lula.
Isso não é correto.
Lula não controla o Supremo Tribunal Federal.
Presidente da República não determina decisão de ministro, não conduz investigação envolvendo integrante da Corte e muito menos pode ser responsabilizado pela conduta pessoal de cada um dos onze ministros.
É preciso separar as coisas.
Defender o STF como instituição democrática não significa defender tudo o que qualquer ministro faça.
Da mesma maneira, defender que ministros sejam investigados quando existem indícios de irregularidades não significa atacar o Supremo ou a democracia.
Aliás, essa é justamente a posição correta.
Todos devem ser investigados quando houver elementos que justifiquem uma investigação.
Seja deputado, senador, empresário, banqueiro, presidente da República ou ministro do Supremo Tribunal Federal.
Ninguém pode estar acima da lei.
O próprio presidente Lula tem defendido a apuração dos fatos e a responsabilização de quem eventualmente tenha cometido crimes.
Essa postura desmonta uma narrativa que parte da direita tenta construir: a de que Lula estaria interessado em proteger ministros simplesmente porque algumas decisões do Supremo atingiram Jair Bolsonaro e integrantes de seu grupo político.
Não existe razão para Lula assumir essa responsabilidade.
Se um ministro praticou algum crime, que seja investigado.
Se a investigação comprovar o crime, que responda perante a Justiça.
Isso deve ser defendido por qualquer democrata.
O próprio presidente do STF, Edson Fachin, também afirmou que fatos envolvendo ministros devem ser apurados sem exceções. Portanto, investigar não significa destruir o Supremo. Pelo contrário. Uma instituição se fortalece quando demonstra que seus próprios integrantes também estão submetidos à lei.
Mas há uma consequência política que não pode ser ignorada.
A crise do STF contaminou o debate eleitoral.
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O caso Banco Master colocou o tribunal no centro da campanha, aumentou a pressão sobre ministros e ofereceu à direita um discurso extremamente simples: associar Lula ao chamado “sistema”.
Essa associação é totalmente injusta.
O próprio Lula reconheceu depois do primeiro turno que sua campanha acabou carregando parte do desgaste provocado pela crise de imagem da Suprema Corte e defendeu mudanças no Judiciário.
E aqui está talvez o maior erro que Lula poderia cometer agora: assumir para si uma defesa automática de qualquer ministro.
Não precisa.
Lula deve continuar a defender a democracia, como vem fazendo.
Defender as instituições.
Defender a Constituição.
Mas deve defender também investigação, transparência e responsabilização, como sempre tem falado.
E isso vale para todos.
Porque existe uma diferença gigantesca entre atacar o Supremo porque não se gosta de suas decisões e cobrar explicações de um ministro diante de fatos concretos.
A extrema direita passou anos atacando o STF principalmente porque o tribunal impôs limites a movimentos antidemocráticos e porque decisões judiciais atingiram Jair Bolsonaro e seus aliados.
Essa discussão é completamente diferente.
Se agora surgem suspeitas envolvendo integrantes da Corte, elas precisam ser investigadas com a mesma independência que esperamos quando o investigado pertence ao Executivo, ao Legislativo ou ao setor empresarial.
E Lula tem defendido exatamente esse princípio.
Sem proteção.
Sem perseguição.
Sem dois pesos e duas medidas.
O STF não estava nas urnas.
Mas o desgaste dele estava.
E parte desse desgaste acabou sendo colocado injustamente nas costas de Lula.
Agora cabe ao presidente deixar uma posição muito clara para o país: ninguém precisa escolher entre defender a democracia e defender investigação.
É possível fazer as duas coisas.
O Supremo precisa continuar forte como instituição.
E justamente por isso, nenhum de seus ministros pode estar acima da lei.