93 dias depois, Flávio não apresentou prestação de contas dos R$ 61 milhões ligados a Vorcaro

Senador prometeu divulgar em 30 dias os detalhes do financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro; documentos mostram cobranças, ligações e transferências internacionais

93 dias depois, Flávio não apresentou prestação de contas dos R$ 61 milhões ligados a Vorcaro
Vorcaro transferiu cerca de R$ 61 milhões para a produção do filme “Dark Horse”. Foto | Democrático News
Leia e depois continue
Total Colaboração R$ 10,00

Ajude este portal a continuar existindo com apenas R$ 10

Rápido e sem burocracia
Contribua via Pix em segundos. Sem precisar de cartão ou criar contas longas.
Você decide como ajudar
Sugerimos R$ 10, mas qualquer valor voluntário mantém nosso jornalismo vivo.
Informação para todos
Seu apoio garante que nossas notícias continuem gratuitas e acessíveis.
+6.500 pessoas já apoiaram
Contribuição Segura via Pix
Escolha sua doação
Valor enviado será único.
Outros Valores +

Com quanto você pode ajudar hoje?

Sua contribuição é usada para impulsionar notícias e manter a equipe de redação.

Você quer se identificar ou doar anonimamente?

Caso você escolha se identificar, seus dados nos ajudam a saber quem realizou a doação e quem apoia esta causa.

Ambiente seguro e criptografado
Contribuição segura Pix VISA
Noventa e três dias depois de prometer uma prestação de contas sobre o financiamento de Dark Horse, filme inspirado na trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro ainda não apresentou publicamente o conjunto detalhado de contratos, extratos, notas fiscais e destinatários finais dos recursos ligados ao banqueiro Daniel Vorcaro.
A promessa foi feita em 19 de maio de 2026. Na ocasião, Flávio afirmou que havia solicitado à produtora Go Up Entertainment e ao fundo norte-americano envolvido na operação uma prestação de contas “de forma transparente, em até 30 dias”. O prazo terminou por volta de 18 de junho.
Desde então, foram divulgados documentos bancários, uma planilha de pagamentos, mensagens, registros de ligações e um laudo particular contratado pela defesa da produtora. Nenhum desses materiais, porém, corresponde à apresentação pública e integral prometida pelo senador.
É necessário fazer uma distinção fundamental: os documentos conhecidos não demonstram que R$ 61 milhões tenham sido depositados na conta pessoal de Flávio Bolsonaro. Eles indicam que o senador participou da negociação, acompanhou as parcelas e cobrou pagamentos destinados à estrutura responsável pelo financiamento do filme.
Flávio nega ter recebido dinheiro pessoalmente, afirma que não houve contrapartida política e sustenta que o projeto foi financiado exclusivamente por recursos privados.

O acordo estimado em R$ 134 milhões

A primeira reportagem com áudios e mensagens sobre a negociação foi publicada pelo Intercept Brasil em 13 de maio intercept.com.br
Segundo os registros analisados pelo veículo, Flávio e Daniel Vorcaro discutiram um financiamento de aproximadamente US$ 24 milhões. Pela cotação dos períodos mencionados, o valor correspondia a cerca de R$ 134 milhões.
Uma planilha denominada “Funding Schedule” previa 14 desembolsos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. Os documentos disponíveis apontam que pelo menos seis parcelas foram efetivamente transferidas entre fevereiro e maio de 2025.
Data do PagamentoValor aproximado
13 de fevereiro de 2025 US$ 2 milhões
24 de março de 2025 US$ 2 milhões
24 de marco de 2025 US$ 1,66 milhão
25 de abril de 2025 US$ 1,66 milhão
25 de abril de 2025  US$ 1,66 milhão
25 de abril de 2026 US 1,66 milhão
29 de maio de 2025 US$ 1,66 milhão
Total documentado inicialmente foi de U$ 10,6 milhões.
Convertidas pelas cotações das datas das transferências, as seis parcelas somavam aproximadamente R$ 61 milhões.
Uma segunda reportagem do Intercept, publicada em junho⁠, apresentou a planilha e um comprovante bancário da primeira remessa.

O caminho internacional do dinheiro

O comprovante Swift da operação de 13 de fevereiro registra uma transferência de US$ 2 milhões. O dinheiro saiu da Entre Investimentos e Participações Ltda., passou pelo Banco BS2 e teve como beneficiária a Havengate Development Fund LP, que mantinha conta no JPMorgan Chase, nos Estados Unidos.
A Havengate é controlada pelo advogado Paulo Calixto, que também atuou para Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos.
A Entre Investimentos e Daniel Vorcaro negaram publicamente que o banqueiro fosse proprietário, controlador ou integrante da administração formal da empresa. As mensagens divulgadas pelo Intercept, entretanto, foram interpretadas pelo veículo como indícios de uma conexão operacional entre Vorcaro e os pagamentos.
O fato de a remessa ter partido formalmente da Entre, e não de uma conta pessoal de Vorcaro, é uma das questões que a investigação precisa esclarecer.
Também não se deve confundir as diferentes etapas financeiras: o valor enviado pela Entre à Havengate, o montante posteriormente utilizado pelo fundo e o custo declarado pela produtora são fluxos distintos e não podem ser simplesmente somados.

Relatório do Coaf aponta valor superior

A investigação ganhou uma nova dimensão quando a Procuradoria-Geral da República citou um Relatório de Inteligência Financeira do Conselho de Controle de Atividades Financeiras.
De acordo com informações publicadas pela revista piauí⁠, o Coaf identificou US$ 12.333.335 em operações entre a Entre Investimentos e a Havengate.
O valor é aproximadamente US$ 1,7 milhão superior aos US$ 10,6 milhões documentados inicialmente nas seis parcelas. A descrição pública do relatório, porém, não permite concluir se os dois números abrangem exatamente o mesmo período ou o mesmo conjunto de transferências.
O dado reforça a necessidade de divulgação dos extratos completos. Sem eles, não é possível determinar publicamente quantas remessas foram realizadas, em quais datas e qual foi o destino final de cada parcela.

Flávio acompanhou parcelas e cobrou pagamentos

Mensagens e áudios divulgados pela imprensa mostram que Flávio não se limitou a apresentar as partes envolvidas.
Em dezembro de 2024, interlocutores organizaram uma aproximação entre o senador e Vorcaro. Participaram das articulações nomes como Eduardo Bolsonaro, o deputado federal Mário Frias e Thiago Miranda.
Uma reunião foi programada para 11 de dezembro de 2024, na residência de Vorcaro em Brasília. Imagens da Comissão de Constituição e Justiça do Senado mostram Flávio recebendo uma ligação e deixando a sessão por volta do horário marcado, retornando depois das 18h. As imagens, isoladamente, não comprovam que ele tenha comparecido pessoalmente ao encontro.
Em janeiro de 2025, mensagens indicam que o senador pressionava para que a parte jurídica da operação fosse concluída. Em setembro, Flávio demonstrou preocupação com parcelas atrasadas e com o impacto do atraso na produção do filme.
Isso não comprova que ele tenha se apropriado dos recursos. Demonstra, entretanto, que acompanhava a execução financeira do acordo e atuava para que os pagamentos continuassem.

Cinco ligações em setembro

Registros divulgados pelo ICL Notícias⁠ apontam pelo menos cinco ligações entre Flávio e Vorcaro em setembro de 2025.
As chamadas ocorreram nos dias 8, 16 e 24 de setembro e somaram aproximadamente seis minutos e vinte segundos.
A primeira teria ocorrido às 22h12 de 8 de setembro, cerca de um minuto depois de uma mensagem em que Flávio mencionava o atraso nos pagamentos relacionados ao filme. A chamada durou dois minutos e 38 segundos.
Outras quatro ligações foram registradas nos dias 16 e 24. Os registros confirmam os contatos, mas não revelam o conteúdo das conversas. Portanto, não é possível afirmar que todas tratavam do financiamento de Dark Horse.
Em novembro de 2025, Flávio ainda enviou a Vorcaro uma mensagem na qual escreveu que estaria sempre ao lado dele, segundo o material divulgado pelo Intercept.

Ajude este portal a continuar existindo com apenas R$ 10

Rápido e sem burocracia
Contribua via Pix em segundos. Sem precisar de cartão ou criar contas longas.
Você decide como ajudar
Sugerimos R$ 10, mas qualquer valor voluntário mantém nosso jornalismo vivo.
Informação para todos
Seu apoio garante que nossas notícias continuem gratuitas e acessíveis.
+6.500 pessoas já apoiaram

Visita depois da prisão de Vorcaro

Flávio também confirmou ter visitado Daniel Vorcaro em sua residência, em São Paulo, depois da primeira prisão do banqueiro no caso Banco Master.
Vorcaro havia sido libertado, mas permanecia sujeito a medidas cautelares. O senador afirmou que a visita tinha como objetivo encerrar as tratativas relacionadas ao filme.
Reportagens do Metrópoles⁠ e da Folha de S.Paulo⁠ registraram versões divergentes sobre a finalidade do encontro. Até o momento, não há informação pública suficiente para determinar o conteúdo completo da conversa.

Laudo particular declarou custo de R$ 75 milhões

Em junho, a Go Up Entertainment apresentou um laudo particular em um processo judicial em São Paulo. O trabalho foi contratado pela própria defesa da produtora.
Segundo o documento, o custo de Dark Horse alcançava aproximadamente US$ 13,393 milhões, equivalentes a cerca de R$ 75 milhões. Desse total:
aproximadamente US$ 9,665 milhões, ou R$ 54,2 milhões, teriam sido gastos nos Estados Unidos;
cerca de US$ 3,728 milhões, ou R$ 20,9 milhões, teriam sido gastos no Brasil;
o orçamento inicialmente aprovado seria de US$ 16 milhões, aproximadamente R$ 89,7 milhões.
Os dados foram divulgados pelo Metrópoles⁠ e pela Folha⁠.
O laudo afirma que os recursos eram privados, mas não identifica publicamente todos os investidores, beneficiários finais, fornecedores e prestadores de serviços. Também não esclarece integralmente a diferença entre os US$ 24 milhões negociados e os US$ 13,393 milhões declarados como custo.
Por ter sido contratado pela defesa da empresa, o documento não equivale a uma auditoria pública independente. Tampouco substitui a prestação de contas prometida por Flávio.
A produtora declarou à Reuters⁠ que o filme teria mais de dez investidores e que não recebeu diretamente dinheiro de Vorcaro ou de empresas dele. O ponto central da investigação é justamente a possível utilização de intermediários.

Inquérito autorizado no STF

Em julho, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, autorizou a abertura de um inquérito da Polícia Federal para investigar as operações relacionadas ao financiamento do filme.
A apuração foi aberta depois de pedido da PF e manifestação favorável da Procuradoria-Geral da República. Segundo a Folha de S.Paulo⁠, a investigação procura identificar:
a origem efetiva dos recursos;
o caminho percorrido pelo dinheiro;
os beneficiários finais;
eventual evasão de divisas;
possíveis operações de lavagem de dinheiro;
eventual contrapartida política ou legislativa.
Entre os nomes mencionados nas reportagens sobre o inquérito estão Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Mário Frias, Thiago Miranda, Paulo Calixto, Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel.
O inquérito tramita sob sigilo. Sua abertura não significa condenação nem comprova que os investigados tenham cometido crimes. Até agora, também não foi divulgada prova conclusiva de que Flávio tenha recebido pessoalmente os recursos ou oferecido uma contrapartida política.

As notas fiscais de outras empresas

Outra frente de questionamentos envolve notas fiscais emitidas pelo escritório de advocacia de Flávio.
Em abril de 2025, foram emitidas três notas de R$ 500 mil. Duas, que totalizavam R$ 1 milhão, tinham como destinatária a Copenhagen Consultoria e Assessoria S.A. e foram canceladas no mesmo dia. A terceira, de R$ 500 mil, foi emitida para uma empresa identificada como Contábil Correa, também relacionada em reportagens à BR Global.
Segundo o Metrópoles⁠ e a Folha⁠, as empresas aparecem em apurações sobre operações ligadas ao Banco Master.
Esse episódio não corresponde aos R$ 61 milhões do filme e deve ser tratado separadamente.
Flávio afirma que não prestou serviços nem recebeu os R$ 1 milhão da Copenhagen, motivo pelo qual as duas notas foram canceladas. Sobre a terceira nota, sustenta que houve um contrato regular de assessoria jurídica e que desconhecia qualquer ligação da contratante com o Banco Master.

O que Flávio respondeu depois dos 93 dias

Em 20 de agosto, durante uma agenda pública em São Paulo, Flávio declarou à Folha⁠ que o caso seria “página virada”.
O senador afirmou que materiais da prestação de contas já teriam vazado e que estava “tudo certinho”. Também voltou a dizer que não houve recebimento pessoal nem irregularidade.
Essas declarações representam uma resposta política, mas não equivalem à publicação do conjunto documental prometido em maio. Até esta atualização, não foi disponibilizado ao público um arquivo completo contendo os contratos, extratos, notas fiscais, relação de fornecedores e identificação de todos os destinatários finais.
Até lá, a informação comprovada é que Flávio participou das tratativas, acompanhou pagamentos e prometeu transparência em 30 dias. Passados 93 dias, os esclarecimentos apresentados permanecem parciais, enquanto documentos essenciais continuam fora do alcance do público.