China e Rússia reforçam apoio ao Brasil contra interferência dos Estados Unidos

Pequim e o Kremlin reforçaram nesta semana discursos em defesa da soberania brasileira e contra interferências externas. Semanas antes, Vladimir Putin enviou ao Brasil um de seus principais assessores

China e Rússia reforçam apoio ao Brasil contra interferência dos Estados Unidos
Nesta quinta-feira, 17 de setembro, o Ministério das Relações Exteriores da China foi questionado especificamente sobre a pressão dos Estados Unidos contra o Brasil.
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A crescente tensão entre Brasil e Estados Unidos em pleno ano eleitoral passou a envolver diretamente duas das maiores potências rivais de Washington. A China voltou a defender publicamente a soberania brasileira e o princípio da não interferência estrangeira, enquanto a Rússia ampliou nas últimas semanas os contatos de alto nível com o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Nesta quinta-feira, 17 de setembro, o Ministério das Relações Exteriores da China foi questionado especificamente sobre a pressão dos Estados Unidos contra o Brasil e sobre possíveis impactos no processo eleitoral de 2026.
A pergunta feita ao porta-voz Guo Jiakun citou críticas do governo norte-americano ao Brasil, discussões sobre novas sanções contra ministros do Supremo Tribunal Federal e a proximidade da eleição presidencial brasileira.
A resposta chinesa foi curta, mas diretamente relacionada ao princípio de soberania:
“A China adere à não interferência nos assuntos internos de outros países. Desejamos ao Brasil uma eleição estável e tranquila.”
A manifestação consta da transcrição oficial da entrevista coletiva publicada pelo Ministério das Relações Exteriores chinês.

Xi Jinping já havia falado diretamente em “interferência externa”

A manifestação desta semana não é isolada.
Em 27 de julho, o presidente chinês Xi Jinping conversou por telefone com Lula e apresentou uma posição ainda mais explícita.
De acordo com o comunicado oficial do governo chinês, Xi afirmou que Pequim apoia o Brasil em seus esforços para preservar sua soberania e independência e se opor à interferência externa.
O comunicado também registra que Xi mencionou a existência de uma “importante agenda política interna” no Brasil em 2026 e afirmou que China e Brasil deveriam aprofundar sua coordenação estratégica bilateral e multilateral.
A declaração ganhou peso por ter ocorrido em um momento no qual o governo brasileiro já manifestava preocupação com ações de autoridades norte-americanas relacionadas ao processo eleitoral brasileiro.

Documento dos EUA aumenta tensão sobre eleição

O assunto ganhou um novo capítulo nesta semana.
Reportagem publicada em 17 de setembro revelou que, durante negociações realizadas em 2025, o governo de Donald Trump apresentou às autoridades brasileiras uma relação de exigências que incluía uma referência direta à eleição presidencial de 2026.
Segundo documentos relatados pela imprensa, Washington defendia que o Brasil permitisse a participação de chamados “dissidentes políticos” no processo eleitoral.
Ao todo, o documento continha 21 exigências, algumas sem relação direta com as discussões comerciais que estavam sendo realizadas entre os dois países.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, determinou que o documento fosse rejeitado pelo governo brasileiro.
A revelação ajuda a explicar por que o tema da soberania nacional passou a ocupar espaço tão relevante nas manifestações recentes de Lula e nas conversas diplomáticas do Brasil com outros integrantes do BRICS.

E a Rússia?

No caso russo, o movimento ocorreu de maneira diferente.
Em agosto, o presidente Vladimir Putin enviou ao Brasil Nikolai Patrushev, um dos integrantes mais influentes da estrutura política e de segurança do governo russo.
Patrushev é assessor presidencial de Putin e preside o Conselho Marítimo da Federação Russa. Antes disso, comandou o serviço de segurança russo FSB e foi secretário do Conselho de Segurança do país.
Em 4 de agosto, Patrushev foi recebido pelo presidente Lula em Brasília.

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O encontro não constava inicialmente na agenda pública do presidente e posteriormente foi divulgado pela representação diplomática russa. Segundo as informações publicadas sobre a reunião, foram discutidos assuntos relacionados à cooperação bilateral e à segurança internacional.

Assessor de Putin se reuniu com núcleo estratégico do governo

Patrushev não veio ao Brasil apenas para conversar com Lula.
Durante sua passagem pelo país, o representante russo manteve reuniões com Celso Amorim, assessor especial da Presidência para Assuntos Internacionais; com a secretária-geral do Itamaraty, Maria Laura da Rocha; e com o comandante da Marinha, almirante Marcos Sampaio Olsen.
As conversas envolveram cooperação naval, ciência, tecnologia, segurança internacional e projetos marítimos.
Também houve contatos com representantes dos ministérios de Portos e Aeroportos e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços.
Dias depois, Patrushev visitou no Rio de Janeiro o NAM Atlântico, maior navio de guerra da Marinha brasileira e atual navio-capitânia da força naval.
Durante a viagem, a delegação russa também discutiu projetos relacionados a tecnologia naval, pesquisa oceânica e exploração submarina.

Lula e Putin conversaram no mesmo dia

Há ainda uma coincidência diplomática relevante.
No mesmo 4 de agosto em que Patrushev esteve com Lula, o presidente brasileiro manteve uma conversa telefônica de aproximadamente uma hora com Vladimir Putin.
Segundo o governo brasileiro, Lula e Putin discutiram comércio, fornecimento de diesel e fertilizantes e o aprofundamento da cooperação em energia, ciência, tecnologia e área naval.
Os dois governos também destacaram a importância da atuação conjunta em organismos multilaterais e do BRICS.
Segundo a versão divulgada pelo lado russo, Brasil e Rússia reconheceram que possuem posições semelhantes em diferentes temas internacionais e concordaram em manter coordenação próxima na ONU e em outros fóruns multilaterais.

Uma frente diplomática, não uma promessa militar

Os fatos mostram uma aproximação clara entre Brasília, Pequim e Moscou em torno de temas como soberania, multilateralismo e oposição à interferência externa.
No entanto, até o momento, não há declaração pública de China ou Rússia prometendo proteção militar ou pessoal a Lula, nem um anúncio russo afirmando que Moscou interviria diretamente caso os Estados Unidos tentassem influenciar a eleição.
O que está documentado é diferente: a China declarou expressamente apoio ao Brasil na defesa de sua soberania e independência e na oposição à interferência externa, enquanto a Rússia intensificou a coordenação estratégica com Brasília, enviou um assessor próximo de Putin ao país e ampliou conversas com setores diplomáticos e de Defesa.
No caso chinês, a posição foi reiterada às vésperas da eleição. Em 17 de setembro, quando questionado especificamente sobre pressões norte-americanas e o processo eleitoral brasileiro, o governo de Xi Jinping novamente evocou seu princípio de não interferência.

Soberania entra no centro da eleição de 2026

O cenário coloca a política externa definitivamente no centro da disputa presidencial brasileira.
De um lado, o governo Trump tem adotado posições críticas em relação a decisões brasileiras e, conforme revelado nesta semana, chegou a apresentar exigências relacionadas ao ambiente político e eleitoral brasileiro durante negociações com Brasília.
Do outro, o governo Lula intensificou relações com grandes integrantes do BRICS, principalmente China e Rússia, defendendo uma política externa baseada em soberania nacional, multilateralismo e maior autonomia em relação às grandes potências.
A sequência de acontecimentos — declaração de Xi contra interferência externa, visita de um dos principais assessores de Putin, telefonema entre Lula e Putin e a revelação das exigências apresentadas pelo governo Trump — mostra que a eleição brasileira de 2026 deixou de ser acompanhada apenas dentro das fronteiras do país.
Agora, ela também ocupa espaço na disputa diplomática entre algumas das maiores potências do mundo.