Mendonça manteve sob sigilo relatório da PF que apontava falta de provas contra Lulinha

Relatório de inteligência da Polícia Federal classificou como frágeis elementos usados para associar Fábio Luís Lula da Silva às fraudes envolvendo descontos do INSS.

Mendonça manteve sob sigilo relatório da PF que apontava falta de provas contra Lulinha
Ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), durante sessão; relatório de inteligência da Polícia Federal questionou elementos utilizados contra Lulinha em investigação relacionada ao INSS.
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Um relatório de inteligência da Polícia Federal trouxe novos questionamentos sobre a condução das investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, filho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O documento aponta que determinadas imputações feitas contra Lulinha em uma frente relacionada às fraudes do INSS foram produzidas “sem lastro probatório”, enquanto os procedimentos estavam sob a relatoria do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
Segundo reportagem do UOL baseada no relatório, integrantes da PF vinculados à investigação teriam registrado conclusões envolvendo Lulinha e a lobista Roberta Luchsinger sem elementos probatórios que as sustentassem. O material de inteligência menciona “circunstâncias anômalas” na condução de inquéritos relacionados aos casos INSS e Banco Master.
O relatório também afirma que, naquela investigação específica sobre os descontos associativos do INSS, Lulinha não era formalmente investigado, não figurava entre os alvos das medidas e não haviam sido identificados indícios de participação direta dele nas fraudes. Posteriormente, o documento classificou como “frágeis” elementos utilizados para citá-lo na apuração.
O episódio, entretanto, não significa que a Polícia Federal tenha declarado Lulinha inocente ou concluído que não existem elementos envolvendo seu nome em qualquer outra investigação. O filho do presidente aparece em outras frentes de apuração relacionadas a personagens investigados no escândalo do INSS. A conclusão de falta de lastro mencionada no relatório refere-se aos elementos analisados naquele contexto específico.

Relatório questiona critérios adotados nas investigações

Outro ponto sensível do documento é a comparação entre o tratamento dado a Lulinha e o dispensado a ACM Neto, do União Brasil. Segundo a CNN Brasil e a Folha de S.Paulo, a inteligência da PF levantou a hipótese de que teriam sido utilizados padrões probatórios diferentes conforme a pessoa analisada.
De acordo com o relatório citado pela CNN, durante uma reunião presencial em 13 de agosto, Mendonça teria manifestado a percepção de que a atuação de ACM Neto aparentemente permanecia dentro dos limites permitidos para representação de interesses. A análise da inteligência comparou essa avaliação com o tratamento dispensado aos elementos referentes a Lulinha.
A Folha também informou que os relatórios falam em possíveis “padrões probatórios distintos” na avaliação de casos envolvendo personagens de diferentes campos políticos. Essa é uma avaliação produzida no âmbito da inteligência policial e não uma conclusão judicial de que Mendonça tenha cometido irregularidade.

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Documento foi mantido sob restrição

As informações permaneceram em material de acesso restrito até a crise entre integrantes do STF levar parte do conteúdo ao conhecimento público. O relatório foi citado em decisão de Alexandre de Moraes que encaminhou ao presidente do Supremo questionamentos sobre a atuação de Mendonça.
O caso ganhou ainda mais importância porque a controvérsia ultrapassou a situação de Lulinha. Os documentos de inteligência analisaram a atuação de Mendonça em procedimentos relacionados tanto ao escândalo do INSS quanto ao Banco Master, em meio a uma disputa institucional que passou a envolver ministros do Supremo e a cúpula da Polícia Federal.

Mendonça contesta relatório

André Mendonça, por outro lado, fez duras críticas ao documento. O ministro classificou o relatório como “apócrifo” e destacou que o material não apresentava, segundo sua avaliação, elementos formais como timbre, assinatura e identificação adequada de autoria.
Há ainda uma ressalva fundamental: o próprio relatório se apresenta como documento de trabalho “sem valor probatório”. Parte das informações também recebeu classificação de confiança baixa ou moderada. Isso significa que o material de inteligência não deve ser tratado, isoladamente, como prova de que Mendonça agiu politicamente ou praticou alguma ilegalidade.
A controvérsia, portanto, possui duas dimensões distintas: de um lado, a inteligência da PF questionou a consistência de determinadas imputações contra Lulinha e levantou suspeitas sobre critérios diferentes na condução das apurações; de outro, Mendonça questiona a própria legitimidade e confiabilidade do documento utilizado para fazer essas avaliações.

O que está comprovado até agora

O ponto documental mais seguro é que o relatório atribuído à inteligência da PF efetivamente registra que houve imputações “sem lastro probatório” envolvendo Lulinha e classifica como frágeis elementos usados para relacioná-lo àquela frente das fraudes do INSS. O que não é possível afirmar, com base apenas nesse relatório, é que a PF tenha “inocentado Lulinha” de todas as suspeitas ou que esteja comprovado que Mendonça deliberadamente escondeu provas para prejudicar o filho do presidente.
A revelação acrescenta, porém, mais um capítulo à crise envolvendo a condução de investigações no Supremo e coloca sob escrutínio os critérios empregados na análise de personagens politicamente expostos.