Cezinha, aliado de André Mendonça entra na mira da PF por suspeita de vender influência nos tribunais
Operação autorizada por Flávio Dino investiga Cezinha de Madureira por possíveis crimes de tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro
A Polícia Federal deflagrou nesta segunda-feira, 14 de setembro, a terceira fase da Operação Transparência. Um dos principais alvos é o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP), aliado político do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
Quatro mandados de busca e apreensão, autorizados pelo ministro Flávio Dino, foram cumpridos no Distrito Federal e em São Paulo. A investigação apura possíveis crimes de exploração de prestígio, tráfico de influência, corrupção passiva e lavagem de dinheiro.
Segundo a nota oficial da Polícia Federal, integrantes do grupo investigado teriam negociado o pagamento de valores expressivos, condicionados ao resultado de processos judiciais. A promessa feita a terceiros seria a de que o grupo teria capacidade de influenciar decisões nos tribunais superiores.
É uma suspeita gravíssima. Quando relações políticas e institucionais passam a ser apresentadas como mercadoria, o que está em jogo não é apenas a conduta de um parlamentar, mas a credibilidade do próprio sistema de Justiça.
Cezinha não é apenas mais um deputado próximo do campo conservador. Foi ele quem articulou, em março de 2025, um encontro entre André Mendonça e Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master.
O ministro confirmou a reunião. Segundo sua versão, o encontro tratou de créditos de precatórios de interesse do banco, durou entre 20 e 30 minutos e ocorreu antes de Mendonça assumir, em fevereiro de 2026, a relatoria do Caso Master no Supremo. O gabinete do magistrado afirma que ele somente ouviu o empresário e posteriormente votou contra seus interesses.
A proximidade, isoladamente, não representa prova de crime. Contudo, o fato de o parlamentar investigado por supostamente negociar influência nos tribunais ter servido de ponte entre um banqueiro e um ministro do STF exige esclarecimentos públicos completos.
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Não é razoável tratar essas conexões como simples coincidências políticas. Autoridades que ocupam posições de enorme poder precisam explicar não apenas se agiram dentro da lei, mas também quais critérios permitiram encontros reservados com empresários interessados em processos judiciais.
A própria PF ressalta que, até o momento, não existem elementos indicando a participação de integrantes do Poder Judiciário nos crimes investigados. Essa informação precisa ser respeitada. Mas a ausência atual de indícios contra magistrados não elimina a necessidade de apurar quem alegava ter influência sobre eles e como essa suposta influência era apresentada aos interessados.
Dinheiro vivo e novas perguntas
A advogada Valéria Rodrigues Linhares, esposa de Cezinha, também foi alvo das buscas. Em agosto, a PF apreendeu R$ 510 mil em espécie na bagagem de mão dela durante um embarque no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. O episódio agora será encaminhado ao STF, segundo informações publicadas pelo UOL.
Os advogados de Valéria informaram que pedirão acesso ao processo antes de apresentar uma manifestação. O gabinete do deputado também foi procurado pela imprensa, mas não havia divulgado resposta até a publicação das primeiras reportagens.
A operação é um desdobramento de uma investigação iniciada em dezembro de 2025 sobre possíveis irregularidades na destinação de emendas parlamentares. Agora, a apuração alcança uma suspeita ainda mais explosiva: a possível transformação do acesso aos tribunais em instrumento de negociação financeira.
Cezinha de Madureira é investigado e deve ter assegurados o direito de defesa e a presunção de inocência. Mas mandato parlamentar, influência religiosa ou proximidade com ministros não podem funcionar como escudos contra investigações.
A sociedade precisa saber quem prometeu influenciar decisões, quais processos estavam envolvidos, quem teria oferecido dinheiro e se os pagamentos realmente aconteceram. Também precisa conhecer toda a extensão das relações mantidas entre os investigados e autoridades públicas.
A chamada Operação Transparência somente fará jus ao nome se não houver áreas proibidas, autoridades intocáveis ou relações políticas protegidas pelo silêncio. Quando a suspeita chega tão perto dos tribunais superiores, transparência deixa de ser uma escolha: torna-se uma obrigação democrática.