Sérgio Moro deixa rastro de que a prisão de Lula foi perseguição política

Nova manifestação reforça publicamente algo que já havia sido alegado anos antes

Sérgio Moro deixa rastro de que a prisão de Lula foi perseguição política
Nova manifestação reforça publicamente algo que já havia sido alegado anos antes: que juiz e acusação não agiram de forma independente. Foto: Poder360
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Sergio Moro (PL-PR), hoje senador e favorito nas pesquisas para o governo do Paraná, e Deltan Dallagnol (Novo-PR), ex-deputado federal e hoje candidato ao Senado, publicaram uma foto juntos para marcar a oficialização de suas candidaturas para as eleições deste ano. A publicação, feita por Dallagnol no Instagram, trazia os dois vestindo camisetas alusivas à época da Lava Jato, com a legenda "Nós prendemos o Lula. O STF soltou".
A foto gera revolta, já que Sérgio Moro e Deltan Dallagnol exerceram cargos de grande relevância como juiz e procurador. Essas funções exigem, inclusive por lei, que seus ocupantes sejam totalmente imparciais, sem tomar partido, manifestar preferência ou fazer críticas públicas contra réus envolvidos nos processos que conduzem.
Nas camisetas: Moro usava a frase "Curitiba prendeu, Brasília soltou", enquanto Dallagnol vestia "Eu prendi o Lula, o STF soltou", com uma reprodução do famoso PowerPoint que ele apresentou em 2016 para sustentar a denúncia contra Lula. poder360.com.br

Por que a foto virou polêmica

Veículos críticos a Moro e Dallagnol (como Revista Fórum e Brasil 247) apontaram que o uso do plural "nós prendemos" — juntando um ex-juiz e um ex-procurador que atuaram no mesmo processo — reforça publicamente algo que já havia sido alegado anos antes: que juiz e acusação não agiram de forma independente.
Um advogado citado pela Brasil 247 chamou a publicação de admissão de conluio; um antropólogo citado pela Revista Fórum fez comentário semelhante nas redes. Já o site O Antagonista, de linha mais favorável a Moro, tratou o post apenas como uma peça de campanha que resgata o histórico dos dois na operação.

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O "rastro" da perseguição política

2017-2018 — condenação e prisão. Moro condenou Lula no caso do tríplex do Guarujá em 2017; a pena foi elevada para 12 anos e 1 mês pelo TRF-4. Lula foi preso em abril de 2018, seis meses antes da eleição presidencial, na qual ele liderava as pesquisas com folga sobre Jair Bolsonaro.
2019 — Vaza Jato. Reportagens do The Intercept Brasil, baseadas em mensagens vazadas, mostraram trocas entre Moro (então juiz) e Dallagnol (então procurador-chefe da força-tarefa) sugerindo discussões internas juridicamente questionáveis entre os dois, incluindo Moro dando orientações à acusação — papel que, em tese, cabe a um juiz manter fora do processo.
2021 — STF declara Moro parcial. Este é o fato mais concreto de toda a história. Em março de 2021, a 2ª Turma do STF, por 3 votos a 2, com voto condutor de Gilmar Mendes, reconheceu que Moro agiu com motivação política na condução do processo do tríplex e anulou todos os seus atos no caso. Entre os elementos citados: a condução coercitiva desnecessária de Lula, o vazamento da delação de Antônio Palocci durante a campanha eleitoral de 2018 e a interceptação ilegal de telefonemas do ex-presidente, de familiares e advogados. Separadamente, o relator Edson Fachin já havia anulado as condenações por incompetência da 13ª Vara de Curitiba, devolvendo a Lula seus direitos políticos — decisão confirmada pelo plenário por 8 a 3.
2022-2023 — Dallagnol cassado. Eleito deputado federal em 2022, Dallagnol teve o mandato cassado pelo TSE em 2023.
2026 — indenização pelo PowerPoint. Antes mesmo da foto das camisetas, Dallagnol já havia sido condenado a indenizar Lula em R$ 146 mil por danos morais relacionados à apresentação de 2016.
Esses pontos — sobretudo a decisão do próprio STF sobre a parcialidade de Moro — são o que analistas e apoiadores de Lula citam como base factual (não apenas retórica) para chamar a prisão de perseguição política.

O outro lado

Moro e Dallagnol nunca aceitaram essa leitura. Eles sustentam que a Lava Jato expôs corrupção real na Petrobras e nos governos do PT, que a anulação das condenações se deu por uma questão técnica de competência de foro (não por inocência de Lula) e que o STF — favorável a Lula em composição majoritária — agiu para protegê-lo. Dallagnol já chamou publicamente a fala de Lula sobre "se vingar" de Moro de estímulo a um clima hostil contra agentes da lei, e both seguem se apresentando como vítimas de perseguição por parte do establishment jurídico atual, não como perseguidores. A camiseta de Moro, aliás, foi desenhada propositalmente para evitar a palavra "prendi" na primeira pessoa — só a legenda de Dallagnol usou o plural que gerou a polêmica.